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Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Artigos & cia

  26/05/2007
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Sem voz, cronista caminha para a glória

Aos 74 anos, escritor sente as pernas tremerem ao escutar seu nome e a voz lhe foge novamente, assim como na infância

José Neto
Ao ouvir seu nome suas pernas tremeram. Não conseguiu ficar em pé. Fechou os olhos e ficou mudo. Assim como no começo da infância, lá estava ele, no auge dos seus 74 anos, tomado por um estado de mudez total. Totalmente privado do direito da fala. O pior é que dificilmente estaria ali, naquela cerimônia solene, um aviador como Melo Maluco para lhe trazer de volta a voz. Talvez um médico pudesse solucionar seu problema, mas também não estava ali o milagroso doutor Pedro Ernesto Batista, com suas magníficas bolas de gude. Mesmo que estivesse, o caso era mais grave do que uma simples língua presa ou problema de dicção. Estava mudo, nem um gemido lhe era permitido.

Pela segunda vez seu nome era chamado. Católico, tentava se lembrar das rezas ensinadas no seminário. Foram tantas que agora lhe fugiam todas. Para quem pleiteou ser padre aquilo era um pecado sem perdão. De que lhe adiantara todos aqueles prêmios que ganhara por ser melhor aluno no seminário se agora não sabia a que reza recorrer? Poderia apelar para filosofia, que aprendera a dominar ainda na juventude, mas o tempo lhe era curto para pensar, pensar e pensar.

Percebendo que os aplausos começavam a diminuir, colocou-se em pé. Foi uma atitude inteligente. Os aplausos voltaram a mesma intensidade de antes. Ganhou mais algum tempo para quem sabe recuperar a voz. Era como se estivesse diante de seus torturadores. Tinha certeza que enquanto estivessem ali, fazendo aquele barulho todo, aplaudindo, nada de mal lhe aconteceria. A mesma triste certeza tinha enquanto escutava os gritos das vítimas da ditadura militar. A cada silêncio, a angústia tomava conta, pois podia ser ele a berrar pelas próximas horas.

Um frio na barriga se espalhou e tomou conta do seu corpo por inteiro. Teve a sensação de que não iria conseguir. A mesma sensação que teve quando se casou pela primeira vez. Entretanto, naquela oportunidade conseguiu, assim como em outras cinco. Respirou profundamente. E mirou seu alvo e o caminho a percorrer. Afinal, mesmo que mudo, lá estava um Cavalheiro da Odre des Arts e des Lettres. E como todo Cavalheiro que se preza marchou para sua conquista.

Começou a se mover. As pernas não mais o traiam. Mas estava caminhando para uma das maiores glórias que um escritor poderia alcançar em seu país - completamente mudo. Mas isso era ele: Carlos Heitor Cony, aquele que não se expressa pela fala, mas sim pela escrita. Quando recebeu seu diploma, olhou para a cadeira de nº 3 e a desejou profundamente, assim como desejara sua primeira carteira de jornalista que ganhara há 53 anos. Olhou para o amigo que, educadamente, entregou-lhe o microfone, arrastou o olhar para os amigos que o observavam de pé e repetiu as mesmas palavras que disse ao pai quando escreveu seu nome pela primeira vez: "Muito obrigado".

Este espaço contempla a contribuição de alunos, docentes ou profissionais de quaisquer áreas que queiram transmitir idéias e gerar reflexões acerca de assuntos de interesse coletivo. Os comentários que não tiverem o nome completo do autor e email para contato não serão publicados.


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