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Matéria Prima
Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Cidadão Maringá
  15/09/2007
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CLOVES DA ROCHA - "Trabalho de engraxate é desvalorizado"
Apesar de todas as dificuldades, engraxate concursado para agente de saúde pública não troca sua profissão por nada
CLOVES DA ROCHA - Franciele Cioni
Muitas pessoas desvalorizam a profissão de engraxate. Acreditam que ele é mais um pedinte e acabam menosprezando este profissional, o que faz Cloves Da Rocha, 54, ficar indignado. Natural de Caitité, interior da Bahia, ele veio para Maringá com toda sua família quando tinha apenas dois meses de vida. O baiano culpa, pela visão deturpada da sociedade em relação a essa profissão, alguns meninos que colocam uma caixa nas costas e dizem ser engraxates quando, na verdade, são traficantes.

Rocha, desde criança, gostava muito de estudar, mas com oito anos de idade começou a trabalhar como engraxate. Desde então passou por muitas situações, adquiriu experiência e popularidade. Exemplo dessa mistura entre trabalho e estudo resultou em seu primeiro livro, que está para ser publicado.

Em entrevista ao jornal Matéria Prima, Rocha conta que ser engraxate, mesmo com todas as atribulações, é muito bom. Além de engraxar e consertar sapatos, ele presencia acontecimentos e ajuda muitas pessoas com informações.

Por que o senhor decidiu trabalhar como engraxate, quando poderia ter outras profissões?
Não tive escolha. Quando cheguei a Maringá ainda criança, já sabia o que era passar dificuldades. Tinha de ajudar meu pai com as despesas de casa, então comecei a engraxar sapatos nas ruas da cidade, depois da aula. Era o emprego mais fácil de realizar. De lá para cá, não parei mais. Consegui ter clientes fiéis que sempre engraxam seus sapatos comigo. Meu ponto sempre foi aqui, na avenida Herval [centro].

Se não fosse engraxate qual profissão escolheria?
Sempre sonhei em ser escritor, mas nunca pude cursar uma faculdade. Trabalhar como engraxate todos estes anos foi uma verdadeira experiência de vida. Já presenciei muitas coisas, e com os acontecimentos do cotidiano adquiri conhecimentos que me proporcionaram realizar este sonho. Na primeira quinzena de setembro estarei lançando o meu primeiro livro, "Águas da Saudade", que tem 15 contos e 36 poesias. Eu venho escrevendo todos esses anos. Ainda tenho 30 músicas de minha autoria, que eu espero que algum cantor grave.

O senhor já teve alguma outra oportunidade de trabalho?
Sim. há seis anos prestei um concurso público, para agente da saúde do município de Maringá. Concorri à vaga com mais de 11 mil candidatos e fui aprovado. Mas quando soube do salário percebi que eu ganho mais sendo engraxate do que trabalhando para a prefeitura. Então continuei nas ruas dando brilho aos sapatos dos meus clientes.

Em todos esses anos como engraxate quais os fatos mais marcantes que o senhor já presenciou?
Nossa, foram muitos [risos]. Desde situações tristes a outras engraçadíssimas. Pessoas que falam sozinhas é o mais comum, mas já presenciei muitas brigas de casais. Atualmente, o fato que mais me marcou foi quando um cliente soltou um pum. Nossa, isso sim foi terrível. Eu, morrendo de vontade de rir, porque foi muito alto e engraçado, mas ele era um cliente fiel e se eu fizesse isso jamais ele voltaria. Mas o pior não foi a vontade de rir, mas o cheiro, que quase me matou [risos].

Maringá é conhecida como uma cidade muito receptiva e agradável para se viver. O que o senhor acha que pode ser feito para que a cidade continue sendo vista dessa forma?
Maringá é muito acolhedora. Todos são amigos e se respeitam, tem espaço para todos aqui. Temos de cuidar da cidade com todo o carinho assim como ela cuida de nós, e cuidar também das árvores são o nosso cartão postal. Aqui não falta emprego, não, pode ser a profissão que for. Basta ter força de vontade e, como eu, nunca ter vergonha de trabalhar, porque assim as pessoas serão felizes e bem sucedidas.

Imagem/Franciele Cioni
Cloves Da Rocha exibe com orgulho o livro que escreveu

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