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Matéria Prima
Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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  24/04/2005
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Rede Globo de Televisão, 40 anos ao lado do poder
A "Vênus Platinada" se desenvolveu porque assumiu o tom oficialista, tornando-se retransmissora dos ideais governistas
Rede Globo de Televisão, 40 anos ao lado do poderMarcello Paulino
Nesta semana a Rede Globo de Televisão comemora com grande festa os seus 40 anos de história, exibindo filmes do cinema nacional, shows, e mais: mostrando as fantásticas instalações do Projac, no Rio de Janeiro, onde a telerealidade é construída.
Mas nem tudo são flores na história da "Vênus Platinada", há também acordos ilegais, conchavos e transações obscuras que mancharam a trajetória da maior rede de televisão da América Latina.

Como já foi ressaltado por vários autores, a Rede Globo de Televisão nasceu sob as bênçãos do regime militar, exatamente um ano após o Golpe Militar de 1964. Fundada pelo sofista brasileiro Roberto Marinho, a TV Globo foi inaugurada em 26 de abril de 1965. No início, contava apenas com um pequeno canal de TV no Rio de Janeiro. Hoje, aos 40 anos, a Rede Globo conta com 113 emissoras entre afiliadas e retransmissoras, cobre 99,84% dos 5.043 municípios brasileiros e detem 40% do mercado publicitário televisivo.

A própria existência e desenvolvimento da TV Globo foram frutos de uma parceria ilegal entre a emissora e o capital estrangeiro. O acordo Globo/Time-Life, firmado em 1962, possibilitou não somente a entrada de investimentos financeiros como também toda tecnologia e estrutura técnica, possibilitando o crescimento da emissora.

Os padrões ideológicos do grupo Time-Life predominaram durante a década de 1960 até o início da década de 1970, em pleno período da Guerra Fria. Tal parceria tinha como objetivo disseminar a ideologia americana como forma de conter os avanços do comunismo. Essa ação se repetiu em vários países da América Latina.
Em toda sua trajetória, a Rede Globo sempre esteve ao lado do poder, sua relação com o Estado sempre fora além do que Althusser definiria como "Aparelhos do Estado". A Globo sempre conviveu lado a lado com o poder.

No dia 1º de setembro de 1969 foi ao ar pela primeira vez o Jornal Nacional, inaugurando um novo modelo de jornalismo na TV brasileira, o primeiro programa exibido em rede nacional, cumprindo a função a que a TV Globo fora concebida, integrar o país com o regime.

A estréia do JN também coincidiu com o endurecimento do regime militar (AI-5). O país vivia o pior período da ditadura militar, marcado pela tortura e pela censura prévia aos meios de comunicação. Nesse sentido, a Rede Globo de Televisão só conseguiu se desenvolver porque assumiu o tom oficialista, tornando-se retransmissora dos ideais do regime militar.

Em seu livro comemorativo de 35 anos "Jornal Nacional: A notícia faz história" a Rede Globo alega que também sofreu com as perseguições políticas e com a censura prévia, mas o que não é citado ali é que muitas vezes o controle vinha dos próprios jornalistas, que se auto-censuravam em favor do regime. Os critérios de seleção do que era notícia aliados à identificação profunda entre a emissora e o regime foram fatores decisivos para a linha editorial do jornalismo da Globo.

O Jornal Nacional ignorava os problemas nacionais, simplesmente retransmitia a ideologia vigente. Foi nessa época, em 1973, que o presidente Emílio Garrastazu Médici fez a seguinte declaração: "Sinto-me feliz, todas as noites, quando ligo a televisão para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranqüilizante, após um dia de trabalho".

Com o início dos anos 1980, vários fatos mancharam ainda mais a trajetória da Rede Globo. A tentativa de fraude nas eleições para o governo do Estado do Rio de Janeiro e, principalmente, a omissão diante do movimento em favor das "Diretas Já".

A princípio, a TV Globo ignorou o movimento, no comício realizado na praça da Sé, em São Paulo, em 25 de janeiro de 1984, considerado o marco inicial da campanha. O noticiário do JN apresentou o evento como parte das solenidades comemorativas ao aniversário da cidade. Nos comícios seguintes, a Globo percebeu que estava perdendo audiência, por isso resolveu cobrir as manifestações. Questionada sobre sua omissão, a emissora relata que ainda sofria censura e constantes ameaças de perder a concessão governamental. No livro do JN, a emissora alega que a origem da confusão foi a escalada do noticiário. Nela não há referência ao movimento, e sim às comemorações do aniversário de São Paulo. Mas na íntegra da reportagem, o repórter cita a manifestação das "Diretas Já".

Um outro escândalo, envolvendo a Rede Globo e suas estreitas ligações com o poder foi a construção, a eleição e o impeachment do presidente Fernando Collor de Melo. A eleição de 1989 ficará registrada na história política brasileira por ter ocorrido num contexto histórico inédito no país. Realizada 25 anos após o golpe militar de 64 e quase 30 anos após a última eleição direta (Jânio Quadros " 1960), foi também a primeira após a promulgação da Constituição de 1988, no qual foram permitidos o voto aos analfabetos e o voto facultativo aos jovens a partir de 16 anos.

A importância dos meios de comunicação de massa, em especial da Rede Globo, foi decisiva na construção da imagem e conseqüentemente na vitória de Collor. O ex-presidente não só correspondia ao padrão de beleza televisivo, como também aos interesses neoliberais dos grandes empresários.

A manipulação das pesquisas eleitorais, a ideologia implícita nas telenovelas, a ampla cobertura positiva dedicada à campanha Collor em todos os telejornais e o apoio irrestrito de Roberto Marinho fizeram de Collor presidente do Brasil.
Mas o ponto alto desse que se transformou num dos mais vergonhosos episódios da imprensa brasileira foi a edição do debate entre os candidatos à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Fernando Collor de Melo (PRN). No qual a TV Globo interferiu de maneira decisiva, por meio de uma edição tendenciosa, no processo eleitoral.

Nesse mesmo dia, depois de todo serviço sujo feito ao final do Jornal Nacional, o jornalista Alexandre Garcia termina dizendo: "... mantivemos um canal aberto entre a imprensa e o cidadão, para que melhor se exerça a democracia..."

Dois anos mais tarde, a máscara caiu, revelando todo um esquema de corrupção. O maior de todos os escândalos foi denunciado por Pedro Collor de Melo, irmão do presidente. As declarações de Pedro Collor caíram como uma bomba sobre o governo, no dia 26 de maio de 1992 o Congresso Nacional aprovou a criação de uma CPI para investigar os indícios de corrupção no governo. Em todo o país cresceram os movimentos em favor da renúncia do presidente. Mais uma vez ação da Rede Globo foi decisiva, como num ato de "lavar as mãos", por meio da minissérie Anos Rebeldes, incentivou os movimentos estudantis contra a corrupção no governo, o movimento dos "caras pintadas".

Durante os governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso a Rede Globo de Televisão esteve lado a lado com o poder. Com a intensa propaganda do Plano Real, a Globo contribuiu decisivamente para a eleição e reeleição de FHC e nova derrota de Lula. Em 2002, percebendo a vitória de Lula à Presidência da República, o candidato do PT deixou de ser hostilizado pelos noticiários da emissora. O, durante muito tempo, inimigo da Rede Globo foi eleito. Como num ritual sagrado, Lula é beatificado no altar do Jornal Nacional. E a Rede Globo ocupa o lugar que lhe é de direito, ao lado do poder. Nesse previsível episódio, o lamentável não é o fato de a Rede Globo ter se aliado ao governo petista, o decepcionante é ver que a esquerda brasileira foi domesticada pelos encantos dos media.



Imagem meramente ilustrativa/www.telehistoria.com.br/


Fontes de pesquisa:
www.canaldaimprensa.com.br/nostalgia/trint1/nostalgia1.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Rede_Globo
www.consciencia.net/citacoes/marinho.html
www.shelovesmenot.hpg.ig.com.br/ninguempresta/site/alemkane.html
http://copsa.cop.es/congresoiberoa/base/social/soct30.htm
http://brasil.indymedia.org/media/2004/10/292967.pdf
www.radialistasp.org.br/verdadeira_historia-robertomarinho.htm
http://antiglobo.tripod.com.br/inicio.htm
www.culturabrasil.org/doutorroberto.htm
www.microfone.jor.br/hist_globo.htm
www.canaldaimprensa.com.br/debate/dtercedicao/debate2.htm

Conti, Mario Celso. Notícias do Planalto. Companhias das Letras, Sp, 1999.
JN: A notícia faz história. Jorge Zahar Editor,2004.RJ
Mídia: Teoria e politica. Venício A Lima. Ed. Fundação Perseu Abramo, SP


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  Autor: Marcello Paulino


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