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Matéria Prima
Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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  14/08/2004
  5 comentário(s)


Tragédia gutemberguiana em três atos

Chamemos de gutemberguianos aqueles que fazem o jornalismo; e qual a importância da profissão quando não existe a preocupação ética?

Tragédia gutemberguiana em três atosThiago Alonso
É impossível que se publique aqui, na íntegra, o conteúdo que tornou-se alvo deste comentário. Por diversos motivos. Mas os éticos e os humanitários são os principais deles. No jornalismo, questões de suicídio são tratadas com certo cuidado, em respeito ao leitor, à memória daquele que cometeu o ato e, principalmente, aos familiares; além do que, notícias de suicídio nada acrescentam ao leitor. É informação inútil. Contudo, um estudante de jornalismo de Maringá, no “blog de notícias” Factorama (www.factorama.cjb.net), traz uma nota (publicada no dia 21 de julho deste ano) de suicídio com o seguinte título: “Está chovendo mulher”. O texto segue com as “informações” sobre o ocorrido e se complementa com piadas e deboches de extremo mau gosto, nauseantes e humanamente recusáveis de serem publicadas em qualquer meio de comunicação. Nem os piores chistes de humor negro conseguem ser tão cruéis.

Este é o primeiro ato da tragédia que pela qual passa o jornalismo. Será que deste modo, tratando o ser humano – leitor e vítima – como mera mercadoria, afinal informação é mercadoria, iremos conseguir elevar o nível do jornalismo? Será que aquilo que é o jornalista não se refletirá no leitor dele? Será que jornalismo é apenas informação, nua e crua – imparcial? –, sem qualquer preocupação com quem a receberá? O desrespeito cometido pelo estudante, que, nos comentários deixados no blog, ele defende ser liberdade de expressão, reflete como o jornalismo é encarado por muitos: a liberdade acima de tudo. Não sem um certo reacionarismo, será que só isto importa? A liberdade? Porém, onde estão os limites éticos, humanitários? Onde está a auto-censura? Liberdade não é tudo; não sem doses de ética e responsabilidade, ou então acabaremos no caos.

Eis então que chegamos ao segundo ato desta pequena tragédia: a defesa que o jornalista faz do direito de publicar tal texto. A informação foi publicada em um blog na internet, sob o argumento de que ali tudo pode ser publicado, sem qualquer tipo de censura ou pudor. Entretanto, se os responsáveis pelo blog são capazes de fazê-lo na internet, não fariam o mesmo no impresso ou até mesmo na televisão se tivessem esse poder? Não se discute aqui o meio pelo qual a “informação” foi transmitida, mas a falta de comprometimento daqueles que tratam um assunto desse desta forma. Os responsáveis pelo blog defendem-se deste modo nos comentários: “ele [o estudante de jornalismo] só seguiu a linha do blog q (sic) não segue padrões, ética...”. Como um blog dito de notícias, portanto, com algum comprometimento jornalístico, pode seguir uma linha (editorial?) que não se prende à ética? Há alguma possibilidade de ser ético em um meio e não ético em outros? Há alguma explicação, que não seja o desvio de caráter, para a separação da ética? Ética é como uma máscara que se pode pôr ou tirar a qualquer hora? A ética deve ser mantida em qualquer lugar, seja onde exista a liberdade sartreana ou onde insista uma ditadura militar, para ficar em extremos. Ética, antes de ser jornalística, é uma faculdade do cidadão.

O terceiro ato desta mínima tragédia fica ao comando do leitor. Você decidirá aquilo que quer ler e como isso o atinge. Fica aos profissionais, e estudantes, o apelo para que as discussões das questões que envolvem o jornalismo – como, por exemplo, ética e suicídio – sejam feitas da melhor forma possível, sem textos apelativos ou desrespeitosos. Não basta assinar o texto e se orgulhar: “sou eu quem digo”. Deve-se saber o que está dizendo, afinal, é melhor não assinar quando se escreve algo assim: “Continuo aqui para responder a todos aqueles que se ofendem com piadinhas sobre pessoas que decidiram estourar a cabeça em locais públicos”. ( A citação acima é do estudante de jornalismo, feita nos comentários do blog, a propósito da nota de suicídio.)

Nota do autor: nas últimas semanas o Factorama passou por reformulações consideráveis. Novos jornalistas/colunistas estão escrevendo para o blog. Além disso, os textos ganharam real enfoque jornalístico. A atitude é louvável.
  Autor: Thiago Alonso


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