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Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Conto

  25/09/2004
  1 comentário(s)


Apartamento 1.401

Fernando Klein
Ela não acreditava em premonição, destino, azar, sorte ou qualquer outra coisa dessa natureza. Morena clara, de olhos miúdos e lábios finos, corpo frágil e cabelos curtos, Maria Luísa não possuía uma beleza descomunal, mesmo assim era bela. O conjunto tinha algo misterioso, que poderia enlouquecer qualquer homem são, especialmente os mais românticos e sonhadores.

A fisionomia meiga e aparentemente dócil escondia, porém, uma personalidade forte. Luísa era de uma teimosia inacreditável, às vezes um pouco doentia. Era daquelas pessoas que só acreditavam vendo e, na maioria dos casos, quebrando a cara.

“Edifício Santa Tereza, apartamento 1.401. Edifício Santa Tereza, apartamento 1.401”, sussurrava ela, segurando uma folha de caderno rabiscada. Luísa sabia mais ou menos onde ficava aquele prédio. Subia ofegante e aos tropeços as ruas íngremes da região oeste da cidade, lá pelas bandas do Country Club, uma região que tinha ido apenas algumas vezes, mesmo tendo nascido e morado sempre naquele lugar.

Estava tão ansiosa que preferiu ir a pé. O próximo ônibus demoraria ainda 40 minutos (só havia linhas de 50 em 50 minutos para a região do Country Club). Indo a pé, evitaria também aquela espera que parece sem fim quando se quer tirar alguma dúvida que atormenta. E Luísa estava atormentada. Além disso, não pegando o coletivo, evitaria pensar tanto em Afonso. Afinal, foi no simples ônibus interbairros -linha Vila Agari/Centro - que se conheceram. E, sua ida ao “Edifício Santa Tereza, apartamento 1.401”, poderia decidir o relacionamento dos dois.

Afonso sempre foi meio estranho, mas era justamente essa estranheza que a encantara e a fizera se apaixonar. Sim, estava completamente apaixonada por ele. Aquele desespero em tirar essa história a limpo era apenas mais uma prova de que o amava. Era nisso que pensava durante a caminhada. “Poxa vida! Eu gosto desse cara mais do que imaginava!”. Toda vez que repetia esse pensamento que a perseguia naquele percurso, apressava o passo, a garganta apertava, as mãos suavam e o coração batia mais forte.

“Edifício Santa Tereza, apartamento 1.401”. O papel estava todo amassado entre os dedos, mais de desespero do que de ódio. Aquele nome e número foram entregues na noite anterior. Ela mal dormira, acordou cedo e pôs-se andar como louca até o lugar assinalado. O papel foi repassado por um amigo (ou nem tão amigo assim) de Afonso, o Pedrinho.

Era o prédio onde morava uma ex-namorada dele. E algo de estranho se escondia nessa pessoa, não havia a menor dúvida. Não se tratava de ciúme bobo -Luísa nunca foi de escândalos, era discreta e detestava chamar atenção. Mas tirou forças do coração para saber esse segredo. Somente indo até ao apartamento 1.401, do Edifício Santa Tereza, poderia explicar aquelas lágrimas gratuitas, aquele olhar perdido e distante justo nos momentos em que os dois estavam mais felizes e, principalmente, aquele choro compulsivo quando ela disse pela primeira vez “eu te amo”. Essa mulher era a solução de todo mistério. Precisava vê-la, sim. Não tinha nada demais.

Pedrinho e outros amigos sabiam de algo. Não contavam, mas sabiam. Tanto é, que faziam de tudo para que ela não conhecesse essa história antiga e todas vezes que a viam -isso aumentava o seu desespero- sentiam-se extremamente constrangidos. Por que? Era o que iria saber agora. Sempre desconfiou que Pedrinho não gostava de Afonso, até tinha dito isso ao namorado, que não deu bola. Foi por isso que deve ter dado o endereço, mas isso não importava agora. Tinha conseguido saber onde ela morava e era o mais importante no momento.

Toda vez que falava com Afonso sobre o assunto, ele desconversava, dizendo que não era nada, que era besteira da cabeça de Luísa. Garantia ainda que a mulher da sua vida estava na sua frente, de corpo e alma, “sem tirar nem pôr”. E ela sempre acreditava.

Depois de 30 minutos de caminhada, Luísa chegou à portaria do prédio. Estava visivelmente nervosa, com um pouco de medo também. Jurava que terminaria com Afonso caso descobrisse algo grave, mas como o amava, torcia para que nada acontecesse. Ensaiou até uma prece singela.

- A Clara, por favor, fez anunciar-se ao porteiro.

Tão ansiosa estava, que nem tomou o cuidado de checar se a moça trabalhava ou, por acaso, teria ido viajar. Eram 9 horas, ela poderia tranqüilamente estar no emprego. Teve sorte... Clara estava em casa.

- Quem gostaria?
- É uma amiga.


O velho porteiro se deu por satisfeito com a resposta lacônica -atitude típica daquelas pessoas que o peso dos anos tornou indiferente.

- Apartamento, 1401. Oitavo andar.
- Eu sei
, mentiu. Sabia apenas o número.

O elevador durou quase uma eternidade. (Incrível o tempo. Algumas vezes, os mesmos segundos parecem durar séculos. Outra vezes, são instantâneos). Esse curto espaço de tempo, talvez dois minutos ou mais, Luísa destinou totalmente a Afonso. Recordou nitidamente o dia em que o conheceu. E riu. Era para rir mesmo.

Ele entrou no ônibus e sentou-se ao seu lado.

- Pode um amor durar para sempre?, perguntou, de chofre, assustando-a. Prosseguiu, com outra pergunta:

- Você já encontrou alguém que, na mesma hora, teve certeza de que era a pessoa da sua vida? Questionou, emendando:

- Esta é a terceira vez que te vejo e, de novo, tive essa sensação. Falou tudo isso e desceu.

Ela ficou vermelha de vergonha, mas, no fundo, gostou. Não acreditava em destino e em nada daquilo que aquele louco tinha dito, porém, sempre foi uma romântica incorrigível.

E por ironia desse destino ou dessas coincidências malucas da vida que ela não acreditava, se reencontraram em uma festa mais improvável ainda. Ela já estava dormindo quando as amigas vieram buscá-la. Ele já estava de saída quando ela chegou. Bom, daí já foi demais. Ficaram aquela, depois outra, mais outra e várias vezes. Acabaram namorando.

- Trim, trim.

O elevador chegou, enfim. Luísa estava parada em frente ao apartamento 1.401, que tanto sussurrou de medo e pavor até ali. Quase não acreditava. Por pouco, não perdeu a coragem. “Vamos lá, seja o que Deus quiser”, pensou e tocou a campainha. De novo, os segundos foram eternos... Ouviu passos arrastados e a porta abriu.

- Aahhhh, Aahhh, Ahhh. Gritaram as duas, ao mesmo tempo, transidas de terror. Luísa mais alto, mais forte e muito mais desesperada. Tinha compreendido tudo.

- Meu Deus, gritava. Sentia-se traída; trespassada de dor. Num instantâneo, lembrou-se dos olhares tenros, das confidências, dos planos... Recordou das palavras de afeto, das juras de amor, das noites de angústia, da saudade sem fim... Pensou em todas essas sensações um pouco patéticas de quem ama. Sentiu-se só, vazia, perdida... Como se nada disso tivesse acontecido, como se nada disso tivesse sido para ela.

Luísa e Clara eram sósias, de uma semelhança inacreditável. Para Afonso, um amor podia mesmo durar para sempre. Não importava como.
  Autor: Fernando Klein


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