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Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Conto
  18/11/2004
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Como se a vergonha sobrevivesse a nós
“A lógica, na verdade, é inabalável, mas ela não resiste a uma pessoa que quer viver”. Franz Kafka, em “O Processo’
Thiago Alonso
O velho amarelo ergue um pouco o corpo na cama em que está deitado, ajeita o cobertor surrado que cobre-lhe as pernas, tosse, pigarreia e engole o catarro. Quer descer da cama contudo as pernas fracas dificultam os movimentos. Passa a mão sobre o rosto como quem tenta se limpar ou tirar uma máscara. Levanta-se um pouco mais e grita “traga-o logo” com uma voz autoritária.

Do lado de fora do quarto em que está o velho amarelo ouve-se alguns barulhos e murmúrios. O som de uma chave girando na fechadura é facilmente identificável; chaves se chocam umas contra as outras e o estalar de pesada porta se abrindo. De repente, faz-se novamente um silêncio que, porém, não dura mais que duas dezenas de segundos. O som de passos arrastados e lentos cada vez mais se aproxima da porta e, consequentemente, fica mais alto.

“Pare de arrastar a porcaria desses pés”, brada o velho amarelo e tosse novamente. Tem a saúde debilitada. Batem na porta três batidas secas. “Entrem”. A porta se abre de uma só vez. Primeira a adentrar o quarto é uma mulher esguia, esteticamente situada na tênue linha entre o belo e o grotesco. Possui olhos vivos e saltitantes, um para cada lado. Entra no quarto e fica parada de pé, no canto esquerdo da cama, com as mãos cruzadas na altura do sexo. “Venha logo”, diz ela, com uma voz rouca. O velho amarelo apenas a observa. Cabisbaixo, entra o homem que arrasta chinelos imensos, tem a cara e os movimentos de um homem normal. É comum, sem qualidade nem defeito. Útil e inútil a seu modo.

Entra e fica desviando os olhares inquiridores do velho amarelo e da mulher esguia por entre os fios de cabelo que caem nos olhos. Está tenso e esfrega as mãos uma na outra como que para secá-las que suam, e nem percebe a inutilidade do ato, que as deixam mais umedecidas. Depois de algum tempo em que o silêncio predominara no quarto, o homem comum comprime os olhos, fechando-os como se fosse possível se esconder.

Diz o velho amarelo: “Tu não aprendes mesmo. Acaso te esquecestes das regras?” A voz e movimentos dele, antes severos, agora se tornam cínicos. “Não sabes que deves sempre pedir minha bênção? São as regras. Mas tu insistes em infringi-las, quebra-las, esquecer-se delas. Por quê? Saiba que isto me aborrece.”

O homem comum cora mais. Como se esquecera da bênção? Será que ainda adiantaria pedir bênção ou perdão? Baixa a cabeça, morde os lábios, esfrega-se, está inquieto. Gagueja uma desculpa qualquer: “Desculpe-me, senhor. Perdoe-me. Eu me distraí. Com seu perdão, a minha bênção, por favor, senhor.” As palavras saem baixas e espremidas, como se fossem vomitadas da boca em pequenas golfadas de um vômito amargo. A mulher esguia observa tudo, imóvel.

“O que seria de ti sem mim?”, diz o velho amarelo. “Tu fazes tudo errado, cansa a todos. Agora vem até mim e pede cinicamente perdão. Será que devo te perdoar? Tu não mereces. Oh, tu mesmo sabes que não mereces. Diga-me, tu mereces perdão? Diga-me. Tu sabes que não. Mesmo assim, eu sempre te perdôo. Sempre passo a mão sobre tua cabeça e tu insistes em quebrar as regras. Oh, tu me dá náuseas!” Olha bem fundo para o homem comum e diz: “Tu crês que mereces perdão?”

Silêncio. A única coisa que o homem comum faz é colar o queixo ao peito. Perfura o chão com os olhos. Agora já não se move muito mais. Permanece estático, apertando as mãos. Pensa em murmurar uma defesa qualquer, porém falta-lhe coragem. Falta-lhe sempre. O velho amarelo ergue-se na cama até completar o angulo de noventa graus. Olha para a mulher esguia e diz:

“Diga-me, o que ele fez hoje? Ficou a vagar por aí?”
“Oh, não, não... eu o tranquei o dia inteiro no quarto.”, disse ela. “Não tinha a menor vontade de olhar para a cara dele o tempo todo. Ele me dá nojo.”

O velho faz um movimento de aprovação com a cabeça, como que concordando. Parece satisfeito com a reclusão do homem. Este ainda se mantém de cabeça baixa. O velho pergunta para a mulher, secamente:

“Como ele se comportou hoje?”

Antes dela responder, o homem com cara comum levanta a cabeça para olha-la e em seus olhos pode-se ver um pedido de clemência; um desespero convulso. É como se ele pedisse através do olhar que ela tivesse pena dele. A mulher conserva-se imóvel, não está nem um pouco interessada nos olhares do homem comum.

“Ele? Comportou-se até bem.” O homem sente-se aliviado e levemente alegre com a resposta dela, já o velho parece contrariado. Ela, porém, ainda tem mais o que dizer. “Lembrei-me de algo, mas me dá uma grandiosa repugnância de falar. Esse sujo!”, diz apontando para o homem.

“O quê?” , resmunga o velho.

“Foi no momento em que eu atendia alguém na porta da frente, ausentei-me por poucos instantes e creio que ele pensou que assim eu não o estaria vigiando, que tolo! Logo eu não o ia vigiar? Vão engano. O que sucedeu foi o seguinte: virei alguns segundo e depois voltei em silêncio para vê-lo. Não imaginas o que ele fazia. Este sujo quebrava mais uma vez as regras. Este imoral se masturbava sem a menor preocupação! Gemia e parecia sentir prazeres sem limite! Estava nu e esfregava a mão no sexo sem o menor constrangimento. Fazia a coisa como se isso fosse normal! Mas, calma”, faz um gesto com a mão para que o velho não a interrompa; está visivelmente excitada. “Calma, o pior ainda está por vir. O porco se masturbava e murmurava nossos nomes, o meu e o teu, sem parar. Ele fechava os olhos, dizia nossos nomes e parecia sentir muito prazer com isso. Parecia estar gostando muito da porcaria que estava fazendo. Eu o vigiava apenas para ver onde tudo aquilo ia dar. Ele, então, deu um grito abafado, como se fosse para eu não escutar, mas eu, e ele nem imaginava, já há muito o estava vendo. Ele gemeu mais, disse o meu e o teu nome e se sujou e lambuzou todo da porcaria, o sujo! Depois ficou deitado e suspirando sobre a cama como se a vida fosse a coisa mais linda do mundo. Como tive nojo e ódio dele naquele momento! Fiz eu, então, um barulho e o feio se cobriu como uma criança medrosa, ficou com a cara dissimulada como se nada houvesse acontecido. Cobriu-se com os mesmos lençóis com que tinha se limpado. Oh...”

O velho permanece ainda algum tempo em silêncio, apenas olha para o homem comum. Um olhar entre o calmo e o colérico. O homem está quase em prantos. Cora como nunca, seu corpo arde como brasa, está envergonhado e sem graça.

“Então é isto que fazes quando não estamos perto? Tu te masturbas dizendo nossos nomes? Tu te excitas com mulheres e homens? Tu queres sentir prazer? Oh, tu me dá asco, eu tenho nojo de ti! Eu quero teu bem, mas tu insistes em infringir as regras; tu insistes em fazer coisas que não deve. Masturbar-te dentro de minha casa, debaixo de meu teto! A única coisa que sinto por ti é desprezo e ódio. Desta vez terei que castigar-te. E não é pela masturbação que faço isso. É por tudo! Pela tua dependência de nós, pela tua fraqueza, por tua vida mínima! Eu insisto em não te querer; maltrato-te e te esmago, porém, o que insistes em fazer é pedir-me perdão. Quero tua revolta, mas tu insistes em dizer esta palavra, ‘perdão’. Como a odeio! A ti, castigarei severamente!”

O homem comum nem espera o velho terminar de falar e já está de joelhos ao pé da cama. Chora copiosamente e murmura palavras impossíveis de serem entendidas ou compreendidas. Ajoelha-se aos pés do velho e pede perdão, clemência ou algo parecido. O velho chacoalha com dificuldade as pernas no intuito de afastar o homem. “Saia, saia” murmura.

“Veja como chora”, diz a mulher, “parece até uma criança birrenta e mal-educada”.

“Arrasta-se como um cão! Parece não ter orgulho”, completa o velho amarelo.

Enquanto isso, o homem comum, sem dar ouvido aos comentários, continua a pedir que eles tenham piedade, que todos cometiam erros, e que, dali em diante, não mais irá burlar as regras.

“Não existe perdão!”, brada o velho. “Ao errarmos uma vez, estamos eternamente estigmatizados com o sinal da culpa. Só há a culpa. O peso e a opressão desta. Oh, como tu me chateias com teu choro...” O velho fala mansa e cinicamente. “Fico realmente muito aborrecido com isto. Será que não sentes a culpa dentro de ti? Tu tens de senti-la! É impossível ter uma vida suja como a tua, moralmente suja, e não sentir a culpa. Vida moralmente suja, de culpa e humilhação; fisicamente suja, de sêmen e poeira. Estas coberto disto e isto pesa sobre ti: sabes que não consegues ir além. Serás e serás sempre e sempre a mesma coisa. Não como fugir.”

Enquanto isso, o homem ajoelha, ora, reza com um fervor nunca antes visto. Carrega ainda mais o ambiente. Os outros no quarto, com seus pijamas e caras de nojo, o ignoram.

“Como um cão”, diz a mulher.
  Autor: Thiago Alonso


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