Equipe Matéria PrimaO programa "Pinga Fogo na TV" completa dez anos em outubro e se apresenta como um dos "telejornais" de maior audiência em Maringá e região. De acordo com o apresentador Benedito Cláudio Pinga Fogo de Oliveira o mérito da grande audiência se deve à linguagem (chulamente) simples e às reportagens de caráter (sensacionalista e) local.
Ao utilizar a modalidade coloquial da língua portuguesa, incluindo erros de fonética e gramática, o apresentador admite que tem a intenção de atingir o maior número de pessoas. No entanto, é importante ressaltar que, por trás desse objetivo, o programa acaba incentivando que as pessoas falem errado.
Na edição do dia 23 de junho deste ano, por exemplo, foram contabilizados 12 erros lingüísticos nas falas do apresentador, destacando-se as palavras em que a letra L foi trocada pela letra R, como em "compretando aniversário"; erros de concordância verbal e expressões tipicamente orais e incultas, como "nóis", "fia" e "às veiz".
No entanto ele afirmou, em entrevista a um repórter de Maringá, que, embora fale errado no programa, sabe a maneira correta de se falar. Desse modo, pressupõe-se que abusar dos erros de português é um objetivo bem pensado e colocado em prática no momento em que o programa vai ao ar. "Me expresso apenas no modo natural, no palavreado simples. Algumas palavras até hoje falo errado, mas eu sei a pronúncia correta. Por exemplo: sei que é "sepultamento", com L, mas, quando vou falar no programa, falo "sepurtamento", que é a maneira que a maioria das pessoas fala." Entretanto, será mesmo que essa troca faz alguma diferença? No nível da compreensão não, mas colabora para que a população absorva o erro e pratique-o.
O telejornalismo incentiva o uso da linguagem simples, sem a utilização de palavras complicadas, mas não admite erros de português. Vale lembrar que professores do ensino fundamental, por exemplo, ao trabalhar com crianças no período de alfabetização, não podem falar errado, pois isso geraria uma disfunção no aprendizado dos alunos, incentivando-os a falar errado. Os professores utilizam uma linguagem simples e correta, para a fácil compreensão das crianças.
Mas, será que poderíamos classificar o "Pinga Fogo na TV" como um telejornal? Levando em consideração que o programa tem mais publicidade do que reportagens propriamente ditas, poderíamos afirmar que se trata de uma modalidade de fusão entre os programas Polishop e qualquer telejornal sensacionalista.
Para se ter idéia mais panorâmica da situação, o "Pinga Fogo na TV" do dia 23 de junho trouxe somente três reportagens, uma enquete, algumas notas sem imagens e uma entrevista ao longo de uma hora de programa. Em vez de ocupar o espaço com material jornalístico, o apresentador preferiu trazer 20 comerciais dos mais variados para o telespectador, incluindo os de xarope; planos funerários; duchas térmicas; promoções de uma marca de farinha; macarrão; café; lojas de cama, mesa e banho, eletrodomésticos, materiais de construção e pneus; açougues; shoppings; supermercados; clínicas dentárias; e concessionárias de veículos.
Sobre o sensacionalismo, Pinga Fogo afirmou categoricamente não ser um exímio adepto da prática. No entanto, vale lembrar que apelar para as divindades religiosas e dramatizar as informações caracterizam o conceito de sensacionalismo, como aconteceu quando o apresentador comentou, no dia 23 de junho, o caso do rapaz de atropelou uma mulher em Maringá.
O casamento entre a linguagem chula, o excesso de propaganda e o sensacionalismo mostra-se duradouro, mas, ao mesmo tempo, o programa cai de conceito quando o assunto é credibilidade e profissionalismo. O material jornalístico do programa é bastante restrito e, por fim, é difícil caracterizá-lo como telejornalismo de verdade.
Imagem meramente ilustrativa/Equipe Matéria Prima
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