Equipe Matéria PrimaSe o simples fato de alguém aparecer na televisão dando um "tchauzinho" atrás do entrevistado é motivo, para muitos, de orgulho, não é difícil imaginar como se sentem muitos apresentadores de telejornais. Algumas emissoras já apostaram na mera aparência para ganhar o telespectador, mas os fatos mostraram que largos sorrisos, minissaias e silicones não geram tanta audiência quanto sérios "boa noite" de terninho. Isso não quer dizer, no entanto, que o estrelismo-jornalístico-televisivo não esteja presente também no jornalismo com conteúdo. E se é fama que os apresentadores buscam, eles não podem reclamar, pois o sucesso deles é tão grande que eles viraram até sátira em programa infantil.
Criado no Chile em 2003 por Álvaro Diaz e Pedro Peirano, o telejornal infantil "31 Minutos" é transmitido no país natal pelo canal TVN (Televisión Nacional de Chile) e no Brasil, desde 2004, pelo canal pago "Nickelodeon". O programa é apresentado por fantoches, bichos de pelúcia, bonecos e todo tipo de objeto que puder ser transformado em personagem, como pinos de boliche, luvas e bolas. Com duração de 31 minutos, o telejornal apresenta reportagens fictícias e reais, sempre abordando assuntos relacionados ao cotidiano das crianças.
A "cutucada" mais nítida é ao "jornalismo espetáculo" e pode ser observada logo no início do programa, quando o egocêntrico apresentador Túlio Trivinho mostra que não tem a menor noção do que acontece na redação, está lá apenas para ler o roteiro - escrito por um pino de boliche desconhecido pelos telespectadores e pouco considerado pelos colegas de trabalho. Em um dos episódios, o âncora nada ético soltou a seguinte frase após uma entrevistada pedir sigilo: "Como jornalista, é meu dever profissional contar esse segredo mesmo tendo prometido não contar". Outra crítica feita pelo "31 Minutos" é como os interesses do dono de um veículo de comunicação podem interferir no trabalho jornalístico. Em um episódio, uma empresa de cebola se torna patrocinadora do programa e todas as reportagens e comentários passam a ter de exaltar a importância da cebola ou a marca da empresa.
Juan Carlos Bodoque, um coelho de pelúcia, apresentado pelo próprio telejornal como "jornalista estrela", faz a cobertura das reportagens ecológicas que aparecem em todos os programas. Essas reportagens abordam sempre assuntos reais e com ótima qualidade, tanto em relação à fotografia das imagens quanto ao conteúdo das entrevistas, demonstrando que além de crítico, o programa é educativo. Muitas das reportagens fictícias são baseadas na realidade e se os personagens fossem substituídos por crianças de verdade, o conteúdo valeria da mesma forma.
O humor é a principal marca do programa. Segundo o site Wikipédia " a enciclopédia livre da internet, algumas pessoas conhecidas também são satirizadas, como o crítico de arte Policarpo Avendanho, que é uma "homenagem" a um jornalista de espetáculo da TV chilena. Policarpo é o típico jornalista-apresentador que se julga culto e crítico. Ele apresenta (e escolhe sozinho) a parada musical do programa, em que todos os compositores e cantores são amigos ou parentes dele. Excêntrico, como todo "aspirante a artista que se preze", mandou até construir uma piscina em forma de piano na corbertura onde mora, mas nunca chegou a entrar nela.
O "31 Minutos", apesar de direcionado ao público infantil, faz críticas que nem todas as crianças conseguem perceber e que podem soar como conceitos verdadeiros, em vez de ironias. Além disso, os pequenos telespectadores podem crescer com a imagem de jornalismo egocêntrico e sem ética, acabando com a credibilidade da profissão como um todo, afinal são apenas crianças. O lado bom é que desde cedo elas se familiarizam e passam a gostar do formato telejornal. Isso pode facilitar posteriormente o interesse por programas jornalísticos, o que contribui para a formação de adolescentes menos alienados. Não que o telejornalismo gere reflexões profundas, mas com certeza é mais reflexivo do que novelas vespertinas juvenis.
Imagem meramente ilustrativa/www.onoff.cl/television_01.htm
OS COMENTÁRIOS QUE NÃO TIVEREM O NOME COMPLETO DO AUTOR E EMAIL PARA CONTATO NÃO SERÃO PUBLICADOS Mais notícias da seção
° no caderno
Crítica