| Login | Crie o seu Jornal Online FREE!

Matéria Prima
Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

Capa |  Artigos & cia  |  Cidadão Maringá  |  Comentário  |  Conto  |  Crítica  |  Crônica  |  Entrevista  |  Erramos  |  Geral  |  Livro  |  Moda  |  Opinião  |  Reportagem  |  Você no MP


 Crônica
  10/11/2007
  0 comentário(s)


Brilho eterno das memórias de infância
O homem de hoje esconde as lembranças de ontem, mas revela que todo adulto guarda espaço para o passado
Brilho eterno das memórias de infância"Agora é certo. No próximo dia 29, o lendário Garibaldo volta à tela da TV brasileira, com a estréia do novo Vila Sésamo, na TV Cultura. Personagem que conquistou as crianças nos anos 70, o pássaro brincalhão sempre foi a estrela de Vila Sésamo, infantil que revolucionou a maneira de se produzir TV para crianças."
(O Estado de S. Paulo " 04/10/2007)

Carina Veltrini
Lembro como se fosse hoje. Era uma cidade pequena " ainda é, mas antes, era mais. A casa azul desbotada, os velhos postes inclinados, o vira-lata companheiro, o quintal, o lago. Foi naquele lago que enfrentei a morte pela primeira vez: ela veio como uma sombra fria enquanto eu estava debaixo d"água, mostrando que eu conseguia segurar a respiração por mais de cinco minutos. Levei um susto com a morte, a vi de perto, quase vi seu rosto! Assustei e levantei antes mesmo de 10 segundos, senão ia morrer. Dizem que quem vê o rosto da morte nunca se esquece e morre de olhos abertos.

Eu era criança e estava na flor da idade - e toda idade é flor, quando se é criança. Eu era o melhor no futebol, o pior na queimada e nem sabia o que era xadrez. Passava dias sem fazer coisa alguma e dias fazendo tudo ao mesmo tempo. A bola de meia era a preferida " aquela que agüentava o chão de terra, levantava poeira e atingia em cheio a cabeça das meninas. Porque menina, naquela época, era menino também: jogava bola que nem gente grande, as saias amarradas entre as pernas finas, cheias de hematomas. A televisão já existia, primitiva, mas dava para ver o Fla-Flu. Naquela época, eu já sabia que é mesmo como Nelson Rodrigues disse: o Fla-Flu nasceu 40 minutos antes do nada. Mas o divertido mesmo era ver os filmes de terror, em preto e branco. Os olhos nem mexiam - e quem dormia depois? A noite inteira, todos deitados no colchão da sala, sem mexer ou fazer um "piu". E quando passava cavalo pela rua, os gritos eram ouvidos do outro lado da cidade.

Todo o chão era de terra. Quando chovia, era como festa: a água era lantejoula e a terra se transformava na piscina mais divertida - enquanto as mães viravam poços de reclamação. Mas, na verdade, não precisava chover para sentir o chão impregnado nas coisas, nas pessoas: quando o vento teimava em soprar suas ondas de ar pra lá e pra cá, as mulheres corriam, loucas, para as roupas do varal, tentando salvar a brancura de uma ou outra ainda não possuída pelo marrom. Esse mesmo vento enchia as bocas de areia fina, daquelas que se sente só ao morder os próprios dentes devagar. Era meu prazer secreto.

E os clubes secretos, só para meninos, ninguém podia entrar. Fazíamos planos perfeitos, como nenhum gibi ainda contou. Um dia, veio a idéia: a vizinha trocar de roupa! Era só subir a janela pela mangueira de trás da casa, saltar alguns galhos e fazer abrir a janela. Fomos os quatro, só eu consegui chegar ao último galho. A janela já estava aberta, mas eu tinha de ir mais para cima, mais para cima...

Ivo viu a uva; Rubem Braga viu a viúva; mas eu não vi foi nada: no instante em que a imagem branca ia aparecer diante de meus olhos sedentos de alguma nudez, meu pé mudou de chão e eu mudei de rumo. Caí no chão, fazendo um estrondo. Soube, na hora, que quebrei um braço e duas costelas. Mas antes que alguém aparecesse por ali, segurei as dores e corri ligeiro aos amigos, dizendo que tinha visto coisas mágicas, iguais as de revista. Maior mentira, mas passei a ser respeitado. Pelo menos até o menino da rua de cima roubar todas as nossas burquinhas em um jogo emocionante " que eu perdi...

Mudei de cidade, esqueci muita coisa e cresci. Hoje, meu filho tem videogame e namorada. Os filmes de terror são coloridos, a infância sem magia. Falta ser criança. E quando a nostalgia me preenche, como agora, tenho sempre uma saída: pego a bola, ainda de meia, e vou driblar o cachorro e o passado, fingindo ser a criança ainda guardada em mim.

Imagem meramente ilustrativa
/http://reikicuranatural.blogs.sapo.pt/13519.html

OS COMENTÁRIOS QUE NÃO TIVEREM O NOME COMPLETO DO AUTOR E EMAIL PARA CONTATO NÃO SERÃO PUBLICADOS


  Mais notícias da seção ° no caderno Crônica
11/08/2008 - ° - As aparências podem realmente enganar
Como um mal entendido pode deixar um namoro entre universitários na corda bamba durante a semana de provas...
07/07/2008 - ° - Eu vou ser sempre o melhor dos alunos
Não me importo em fazer de tudo para conquistar a melhor média da turma; vou ser o aluno nota 10 de qualquer maneira...
30/06/2008 - ° - A felicidade pode tardar, mas não falha
Às vezes é preciso superar algumas barreiras e crises para descobrir o tamanho do amor que se sente pelo outro...
23/06/2008 - ° - Gudê moningui, Amazônia, tanquiu, bonjú
A nossa mata Amazônica não é mais a mesma e os que por direito habitam nela, estão perdendo seu território...
16/06/2008 - ° - Incansáveis blá, blá, blás via telefone
Treinados para alcançar metas, operadores de telemarketing usam todo tipo de argumento para convencer consumidores...
09/06/2008 - ° - Nenhum arrependimento cura o passado
Apesar das dificuldades, devemos dar valor aos sentimentos enquanto é possível; quando os perdemos, é fácil lamentar...
27/05/2008 - ° - O mar não está para peixe, tampouco o ar
Um belo dia, pescando tranqüilamente como de costume, pai e filho se depararam com algo impressionante que mudou as suas vidas...
26/05/2008 - ° - A novela da vida real contada em fatos
Quanto mais trágico é o assunto mais valor tem na mídia, mas não como notícia e sim como entretenimento...
19/05/2008 - ° - É possível gostar da espera nas filas
As tão odiadas filas podem ser um boa oportunidade para ouvir histórias interessantes, fazer amigos e aprender a viver...
19/05/2008 - ° - Incertezas de um homem na andropausa
Muitos passam, mas poucos assumem o climatério masculino como uma conseqüência da maturidade de um cinquentão...
19/05/2008 - ° - Que venha, então, essa tal de menopausa
Nem tudo está perdido depois da última menstruação; enfrentar o climatério requer descobrir um novo sentido para a vida ...
05/05/2008 - ° - O Papa e os "papadores" de criancinhas
A visita do pontífice aos estados americanos o revolta; o número de casos de pedofilia envergonham-no...
28/04/2008 - ° - A inevitável atração que sinto por ele
Quando o amor é platônico as conseqüências são eternas e marcam a vida de várias pessoas...
28/04/2008 - ° - Dois países parecidos e gordos por natureza
A história de duas nações que se entrelaçam nos problemas e avacalhações políticas; uma é fictícia e outra muito real...
21/04/2008 - ° - Patriotismo de um mendigo brasileiro
Enquanto uns se divertem com o dinheiro público, por meio dos cartões corporativos, outros vivem em situações miseráveis...
14/04/2008 - ° - Em busca do que as pessoas têm de melhor
Cansado de conviver com os homens do planeta Terra, o cientista decidiu sair à procura de um ser humano perfeito...
08/04/2008 - ° - Zagueiro mata a jogada e é preso em flagrante
Réu confesso, ele admitiu tê-la pego pelas costas; alegou legítima defesa, mas obteve as penalidades máximas ...
08/04/2008 - ° - Confidências de um ônibus estressado
Vida de ônibus não é fácil e fica pior ainda quando usuários decidem partir para as agressões, verbais e físicas...
08/04/2008 - ° - Carta especial ao hipocondríaco moderno
Foi descoberta outra forma de se contrair mais uma doença, o que talvez agrave o histórico e currículo dos compulsivos...
08/12/2007 - ° - O vermelho do menino, velha e silêncio
Ligados, vermelho e silêncio se resignificaram; no dia em que ninguém enxergava, ouvia, sentia, além da velha e do menino...
08/12/2007 - ° - A recompensa chega ao fim das batalhas
Depois de muita correria e enfrentando os mais diversos obstáculos, o ano termina deixando sentimento de dever cumprido...
08/12/2007 - ° - A matéria-prima é o ouro e o mestre, o joalheiro
Toda obra prima passa por um ciclo, assim como o anel começa como pedra ríspida e rude e termina como jóia trabalhada...
08/12/2007 - ° - Despedida com sensação de dever cumprido
Nosso tempo no Matéria Prima já terminou, mas as marcas permanecem; depois de toda tensão inicial é hora dizer adeus...
17/11/2007 - ° - Para nós, que não temos nada de especial
Demonstrar qualquer tipo de afeto pelas pessoas com quem convivemos diariamente não é considerado normal; uma pena...
17/11/2007 - ° - Até que a morte - ou não - nos separe
Nunca é cedo e nem tarde demais para viver um "grande amor"; o problema é encontrar o amor verdadeiro...
10/11/2007 - ° - Que "profunda" preparação política
O repórter ficou pasmado com os projetos de campanha da ex-modelo e socialite, que queria ser prefeita de são Paulo...
03/11/2007 - ° - Policial e bandido resolvem ir ao cinema
Para aproveitar a folga o policial resolve relaxar e ir ao cinema com o filho, mas o bandido decidiu ir também...
03/11/2007 - ° - Nem toda reação é resposta para uma ação
Há fatos tão desprovidos de explicação, que fica cada dia mais difícil entender como ainda continuam a se repetir...
27/10/2007 - ° - No meu tempo, bom era jogador brasileiro
Em tempos de jogadores desconhecidos e falta de amor a camisa, bom mesmo é pedir uma pizza e ver a Seleção pela TV ...
27/10/2007 - ° - Loucura, loucura, loucura no Caldeirão!
Semana de provas e um telefonema muda a minha rotina; sentimentos transformam a falta de confiança em vontade de vencer e fazer vencer ...



Capa |  Artigos & cia  |  Cidadão Maringá  |  Comentário  |  Conto  |  Crítica  |  Crônica  |  Entrevista  |  Erramos  |  Geral  |  Livro  |  Moda  |  Opinião  |  Reportagem  |  Você no MP
Busca em

  
1989 Notícias