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Matéria Prima
Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Crônica
  27/10/2007
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Loucura, loucura, loucura no Caldeirão!
Semana de provas e um telefonema muda a minha rotina; sentimentos transformam a falta de confiança em vontade de vencer e fazer vencer
Loucura, loucura, loucura no Caldeirão!"Neste sábado (29/09), Luciano Huck estréia o concurso Casal Malhação 2008 que irá escolher um jovem e uma jovem que farão parte do elenco da nova temporada de "Malhação". O concurso recebeu inscrições de 21 mil candidatos, mas apenas 200 conseguiram chegar ao processo de seleção. A disputa terá a duração de nove sábados e a grande final está prevista para o dia 24 de novembro."
Fábio TV (www.fabiotv.com.br/manchete.aspx?id=877) - 28/09/2007

Heloísa Beraldo
Recebi um telefonema às 16h.

- Alô! Aqui é da Rede Globo. Estou ligando para confirmar sua presença no Projac para o primeiro teste da novela Malhação.

Me contive. Pensei na possibilidade de ser trote. Disse que estava ocupada.

- Olha, eu tenho que ligar para mais 199 pessoas. Você vem ou não?

Percebi que ela estava jogando comigo. Querendo fingir que a minha presença não era importante. Mantive a mesma postura.

- Realmente, se eu estou te ligando talvez seja porque o seu perfil tenha agradado, né? Você confirma ou não confirma?

Ahá! Eu sabia. Achei-a um pouco irônica. Pensei em pedir para que ligasse mais tarde porque eu iria pensar no assunto, mas talvez eu estivesse realmente ocupada na próxima vez. Então, confirmei e desliguei.
Caramba! Não se tratava de um trote. Só aí caiu a minha ficha. Acabara de me comprometer em estar no Rio de Janeiro em cinco dias e com um texto de dois minutos decorado. Cinco dias. Dois minutos. Fiz os cálculos. Deixando um dia para achar o texto ideal, sobrariam quatro dias, 96 horas. Tive de descontar o tempo em que eu passaria na faculdade, na academia, dormindo, comendo, no banheiro, no telefone, no Orkut, rindo, chorando, pensando, "boiando", arrumando as malas, terminando esta lista. Jesus, Não vai dar tempo! Pensei em desistir. Tudo bem, eu confesso que fiquei um pouco ansiosa. Mas o tempo voou.

Cinco dias depois, bem cedinho, eu já estava no Rio e acordada. Na minha cabeça ainda matutava a idéia de fracasso. Precisava me distrair. Pensei, então, nas provas e trabalhos que eu estava perdendo e nos zeros que fatalmente apareceriam no meu boletim da faculdade. Toda essa aventura poderia não dar em nada.

Só a idéia de ter me deslocado 1.061 quilômetros para falar durante dois minutos em frente a uma câmera, não me animava. No caminho do Projac, uma longa fila chamou minha atenção."Coitadas dessas pessoas. Tão cedo e já estão ali." Me peguei em mais um pensamento negativo. Balancei a cabeça rapidamente e outra coisa me ocorreu."Devem estar dando alguma coisa ." Me senti melhor pensando na bondade de algum carioca naquela hora do dia, até que o táxi parou abruptamente.

- São dezessete reais, moça.

Desacreditando do meu destino em pé, ali, desci do carro. Minhas pernas já não me obedeciam. Fui caminhando lentamente em direção àquela fila que, por alguns instantes, pareceu não ter fim.

Tímida, cheguei desejando um "bom dia" a umas poucas candidatas, e, para quebrar o gelo, pensei em falar da minha preocupação com as provas que eu estava perdendo. Péssima idéia. Rapidamente fui bombardeada por uma série de problemas que me deixaram ainda pior. "Enfrentei 55 horas de viagem!"; "Fui assaltada no aeroporto!"; "Meu noivo terminou comigo!"; "Meus pais não sabem que eu vim!"; "Pedi dinheiro emprestado para estar aqui!"; "Cheguei ontem e dormi na rodoviária!"; "Meu avô faleceu nesta madrugada!". Chega! Pensar em vencer sozinha parecia loucura. Além de tudo, meu problema ficou insignificante. Mas a verdade é que dali somente uma seria escolhida.

O primeiro teste, de resistência, aconteceu na fila. Esperamos, sob o sol, cerca de 40 minutos para entrar no Projac. Encaminhadas a uma sala fria, segundo teste, o de paciência. Permaneci sentada cerca de 12 horas até ser chamada. Respirei fundo para sentir o ambiente. Os cartazes nós lembravam constantemente que, a princípio, éramos 21 mil. Sorri.

Caminhei até a porta e a assistente me indicou as flechas no chão. Desci escadas e cruzei corredores em passos rápidos. As flechas indicavam uma sala cheia de câmeras e aparelhos de TV. Senti o ar cada vez mais gelado. Ao final de um longo tapete vermelho estavam os três jurados. Nada parecia quebrar o "gelo" daquela cena.

Os longos dois minutos que duraram meu monólogo resultaram em uma única resposta: "Você está aprovada!". Senti a tensão escorrer em meu rosto em forma de lágrimas.

Na sala de espera restaram 30 candidatas. Vi minhas novas amigas passarem pela sala decepcionadas. Mal pude me despedir, quando uma nova eliminação foi feita. A assistente surgiu na porta com uma lista onde estavam os nomes de somente 24 candidatas. Mais tensão e mais choro.

No segundo dia, por meio de uma dinâmica realizada no palco do programa, os casais foram formados. Com os olhos vendados, meu único receio, até então, era pegar um garoto mais baixo do que eu. Tive uma surpresa.

"Não!". O garoto novato e estabanado estava diante dos meus olhos e sorrindo para mim. Procurei uma cadeira, mas o que eu precisava mesmo era de um copo com água e açúcar. Nesse minuto senti algumas passadas de mãos no meu ombro. Era como se as pessoas se lamentassem por mim e quisessem me consolar. Vi os garotos se despedirem do meu novo parceiro e um deles, preocupado, até se arriscou a dar conselhos.

Durante o almoço, enquanto todos os outros casais pareciam empolgados combinando os textos, eu e o garoto permanecemos em silêncio. Ele, por vezes, tentou falar algo, mas estava tão nervoso que, gaguejando, desistia de terminar a frase.

Parei e olhando bem para ele percebi que, há algum tempo, estava lutando para cortar um pedaço de carne. Como eu estava sendo egoísta! Os pontos são individuais, mas nós éramos uma dupla, um casal. Incomodada, passei a minha faca para ele, como quem se rendendo entrega sua arma.

Vi o desafio e aceitei.

Contive-me durante a nossa cena. Dei as deixas e o incentivei a falar, permitindo que conduzisse a história. Deu certo. Foi incrível!

Muitas daquelas mãozinhas que bateram no meu ombro voltaram para casa vazias. Mas ele permaneceu na disputa e aquele abraço emocionado foi o meu melhor presente.

Imagem meramente ilustrativa/http://caldeiraodohuck.globo.com

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