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Matéria Prima
Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Crônica
  09/06/2008
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Nenhum arrependimento cura o passado
Apesar das dificuldades, devemos dar valor aos sentimentos enquanto é possível; quando os perdemos, é fácil lamentar
Nenhum arrependimento cura o passado"Por que tantas mulheres desejaram ou desejam ser mães? Afinal, essa tarefa é hoje bem mais do que complexa. Seu exercício exige um tanto de delicadeza que chega a provocar irritação e embaraço. É de difícil desenredo porque no exercício dela a mulher erra sempre, o que torna a tarefa um lance arriscado que faz suar."
Folha de S.Paulo, 08/05/08

Thaís Koga
Onde estou? Não vejo nada. Me sinto estranho. Mas que lugar é este? Há quanto tempo estou aqui? Sinto como se estivesse flutuando, fora de qualquer tempo ou lugar. Acho que o espaço está diminuindo, mas cada vez me sinto mais confortável.

Tenho medo de imaginar o que existe fora daqui. Barulhos, ruídos e impressões acabaram com a minha paz. Ouço vozes, músicas, gritos. Meus sentimentos já não dependem apenas de mim. Sou inundado por sensações, só que nem uma delas me faz bem.
Sinto uma preocupação constante, como se alguma coisa terrível estivesse acontecendo e não tivesse solução; uma raiva que se apodera e faz com que eu não tenha segurança, nem esperança de nada; o medo de não saber o que fazer, como me virar ou me comportar; o desprezo, me sentir tão mal a ponto de talvez ser insignificante.

Tudo isso piora quando, muitas vezes, palavras ficam como um eco na minha mente.

- Que irresponsabilidade fazer um filho nessas condições! Você não se sustenta, vai dar o que pra ele comer?
- Vagabunda, eu não sou o pai! Não quero saber mais de você.
- Eu moro na rua não tenho ninguém. Eu moro em qualquer lugar. Já morei em tanta casa que nem me lembro mais.*

Até que entendi. Toda essa confusão é por mim. Não sei dizer qual meu sentimento. Como eu, antes mesmo de nascer, causo tantos problemas? Por muito tempo esses conflitos ocorreram cotidianamente, mas um dia algo estranho aconteceu. Demorou, mas finalmente percebi que isso é diferente de tudo que já senti, é uma boa sensação.

- Meu filho vai ter nome de santo. Quero o nome mais bonito.*

Apesar da pressão, estou me sentindo bem. Estou descobrindo o amor a partir do afeto. Bem de leve, quase imperceptível, sinto uma carícia, uma mão desliza sobre a barriga suavemente.

Apesar de toda a batalha, por um instante me senti bem e amado, e nesse momento percebo que não importa o quão perturbado pode ser o mundo que nem ao menos conheço, mas depois dessa sensação, nada mais importa.

Depois disso, a esperança de voltar a experimentar esse sentimento basta para suportar qualquer situação, até aquele estranho dia.

Algo aterrorizante está acontecendo. Sinto uma forte pressão e um alívio desesperador, continuo não enxergando, porém agora também não consigo pensar, tudo foge, idéias, emoções e aquela lembrança, a memória da sensação única aos poucos se esgotou.

- Doutor, meu filho morreu?

* Pais e filhos. Composição: Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá. Legião Urbana.

Imagem/www.5sentidos.blogger.com.br/feto_segurando_mao_medico2.jpg

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  Autor: Thaís Koga


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