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Matéria Prima
Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Crônica

  08/12/2007
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O vermelho do menino, velha e silêncio

Ligados, vermelho e silêncio se resignificaram; no dia em que ninguém enxergava, ouvia, sentia, além da velha e do menino

O vermelho do menino, velha e silêncio"O céu vermelho, visto na tarde desta quinta-feira em Maringá e região, foi provocado pelas rajadas de vento forte, de até 100 quilômetros por hora, que vieram acompanhados de uma frente fria. De acordo com o meteorologista do Instituto Tecnológico Simepar, Cezar Gonçalves Duquia, as rajadas de vento anteciparam a chuva e, devido a grande intensidade, fizeram a poeira subir."
O Diário do Norte do Paraná, 01/11/2007

Durval Dorne
E o céu estava vermelho. Escorrendo pó e folhas. O vento elevava o pobre coração de menino que almejava a paz; coração sedento do dizer, coração pequeno, coração. Sentado, olhava pelo vidro o porvir. Aquela revolução, lá fora, inquietava a sua alma. Todos empolvorosos e ele quieto, calado, em si. O vento parecia brincar com os sentimentos dele, um misto de acreditar mais na vida, de perceber que existe solução e, ao mesmo tempo, acreditar na morte, e ver imergir a alta entropia. Ainda buscava no vento a resposta, o sentimento indecifrável, o gosto da terra que desprendera na folha e que, agora, trilhava caminhos tão díspares e dispersos.

A velha reclinada empunha as mãos na cabeça. Olhava nos olhos do menino. As unhas pintadas de rosa compunham o degradê com o céu. Mãos cruzadas. Clemência. Um grito interno de piedade por seus anseios, um grito silencioso de socorro para os que estavam ao seu redor. Ninguém ouvia, ela gritava, o menino sentia e o cheiro. O cheiro inebriava o lugar e criava, ao mesmo tempo, o aspecto de pertencer e não pertencer. Naquele ônibus, ninguém enxergava, sentia, ouvia, a não ser a velha e o menino. Reclusos em si, esperançosos no mundo.

O ônibus deu uma volta, mas o olhar dos dois não se desviou. O menino sentado, a velha reclinada. O ônibus contornava uma pequena praça. Sem flores ou algo que lembrasse a beleza, a idéia das flores e da beleza existia na incólume consciência daqueles simples interlocutores do silêncio. Num olhar não audível aos demais, ela insistentemente gritou. O menino que já o sentia, atordoou-se e viu seu pequeno coração ser transpassado pelo inócuo vazio que continha tantos dizeres.

Uma folha prendeu-se ao vidro. O vento empurrava tão forte que machucara até mesmo o olhar da velha. A folha imergia na garganta e descia por caminhos escuros. Folha. Seca. O menino não sentia isso, estava preocupado com as palavras não ditas e carregadas de significado que sua companheira de olhar proferira. Com a folha presa dentro de si, a velha não exclamava mais nada. Era difícil se mexer. Suas mãos continuavam fixas na cabeça, dedos entrecruzados, sentilados pelas unhas rosas. O garoto, também parado, via, mais uma vez, o céu inebriado do vermelho, das folhas, da areia. Aquilo tudo o incomodava. As folhas, a areia, o céu pintado em tons carregados de vermelho.

A volta estava sendo completada. Todos num mundo só e, cada um dos dois, em seu mundo particular, construindo um novo lugar em que poderiam estar a sós. O menino ferido sentia o olhar da velha a mastigar-lhe, a corroer cada feixe de luz do coração elevado pelo vento. O ônibus parou. Ela continuava debruçada com as mãos à cabeça. O menino quieto, ferido, sentiu o corpo erguer-se e percorrer um caminho próprio. Desceu do ônibus. Ela continuava a olhar na mesma direção, sem o menino à frente, o céu permanecia vermelho, o menino ferido. No ônibus parado, o vento de folhas e areia soprava. Sem som, ouviu-se o silêncio.


Imagem/Arquivo particular Durval Dorne
dorne.vinicius@gmail.com


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