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Matéria Prima
Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Crônica

  17/11/2007
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Para nós, que não temos nada de especial

Demonstrar qualquer tipo de afeto pelas pessoas com quem convivemos diariamente não é considerado normal; uma pena

Para nós, que não temos nada de especial"Uma forte chuva que atingiu Uberlândia (556 km de Belo Horizonte) na noite de anteontem provocou estragos em toda a cidade. Cerca de cem carros foram danificados -alguns chegaram a ficar empilhados pela força do vento e da água acumulada da chuva. Eles boiaram e foram arrastados com a força das águas e do vento, que chegou a 70 km/h."

Folha de S. Paulo, 14/11/2007

Wilame Prado

Dia chuvoso. Daqueles que chegam depois de pelo menos uma semana de ar seco, calor e pessoas andando nas ruas com bolas de suor nas camisetas. Meu itinerário costumeiro, o de andar dois quilômetros que separam o lar do ponto de ônibus (local onde passa o ônibus que me leva até o trabalho), teve de ser modificado. Isso porque, com tênis furado e com ventos que estupram guarda-chuvas, gastar alguns reais a mais para pegar outro ônibus, é melhor do que se molhar.

Se a ação "se molhar" fosse apenas em função da chuva, até aí tudo bem. O problema é que esse "se molhar" corresponde também à lama que atinge os transeuntes devido à pressa que os motoristas têm em dias chuvosos " se esquecem que, na verdade, o pedestre é que deveria ter pressa por não ter um teto de metal que o proteja da chuva.

Mas não vai ser hoje que escreverei um manifesto em prol das causas dos pedestres. Lembrei-me da chuva porque foi em razão dela que utilizei uma linha de ônibus que não costumo e, dentro desse ônibus, um apanhado de fatos chamou minha atenção.

Pois bem.

Na metade do caminho, o ônibus parou em um ponto que fica em frente a um colégio de ensino fundamental e médio. Fui saber, mais tarde, que nesse estabelecimento de ensino, alunos com índices de retardo mental também estudavam, em uma sala especial.

Uma professora e meia dúzia de alunos dessa sala especial adentraram ao ônibus que, mesmo com teto e janelas fechadas, estava incrívelmente ensopado, inclusive os assentos. Cena engraçada e rara: um ônibus com vários assentos vazios, com várias pessoas em pé. A professora, de cabelos loiros, tinha, tranqüilamente, uma quatro décadas de vida. E, como um ser mortal que passou a manhã inteira exercendo uma das profissões mais dignas deste mundo - repassar conhecimento a outras pessoas - foi ocupar um assento sem ver que estava molhado. De repente, um grito de quebrar taças gelou minha espinha e houve correria no corredor do ônibus. Eram os alunos da professora desesperados, alertando-a de que o assento estava molhado. Outras pessoas que dividam o transporte público, assim como eu, entreolharam-se com aquela cara de espanto por ver tamanho zelo de alunos para com a professora.

Chegando ao ponto final, professora, alunos, eu e mais algumas pessoas descemos do ônibus e seguimos nossos caminhos. Já no terminal, pude presenciar mais uma demonstração de total afeto de um aluno para com aquela mulher de quarenta anos, de cabelos loiros e que dá aulas: ele a acompanhou até o outro lado da rua, desviando seu percurso, levando o material que estava em suas mãos.

Talvez, essas cordialidades dos alunos sejam uma forma de agradecimento pelo trabalho que a professora desenvolve diariamente. Ou, talvez, sejam sinceros com todos que estão ao redor. O retardo mental faz com que essas pessoas sejam consideradas excepcionais ou especiais. E é verdade mesmo. São especiais, pois se diferenciam, para melhor, das pessoas "normais", que dificilmente demonstram qualquer tipo de afeto por professores, serventes, cobradores de ônibus, colegas de trabalho, mulher, filhos. Para os "normais", é vergonhoso demonstrar amor ao próximo, é coisa de bicha dizer que ama o amigo, é brega declarar amor eterno à pessoa que divide cama e cobertor todos os dias. Se naquele ônibus, a professora de quarenta anos e de cabelos loiros estivesse acompanha por alunos "normais", pode ter certeza que, naquele momento, estaria molhada e muito encabulada por ter de agüentar chacotas, sarro e novos apelidos que os brilhantes alunos teriam inventado de bate pronto.

Imagem meramente ilustrativa/www.fnlij.org.br/salao8/galeria8.asp

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