Flávia FontesNascido em Ribeirão Preto, André Sanseverino considera-se maringaense, pelo fato de adorar a cidade em que vive desde criança. Formado em arquitetura, o fotógrafo já marcou presença em renomadas revistas, como "Elle", "Vogue", "Capricho", "Cláudia" e "Playboy". Hoje, aos 40 anos, considera-se realizado profissionalmente e visa a realização de projetos sociais, assim como a ONG "Modelos da Esperança", pela qual auxiliará jovens carentes a se adequarem ao mercado da moda.
Dono da revista maringaense "NYX", André Sanseverino recebeu a equipe do jornal
Matéria Prima em seu novo estúdio fotográfico (Jardim Higienópolis " região sul de Maringá), para contar um pouco sobre como é trabalhar em meio a tantos artistas e conceituados nomes da moda e fotografia brasileira.
Você iniciou sua vida profissional como representante comercial de moda. O que o inspirou a entrar para o mundo dos fotógrafos?Eu sempre gostei da fotografia. Sou do tempo da foto em cromo, em que a paixão era você captar o momento. Diferente de hoje. Com a máquina digital qualquer um diz ser fotógrafo. Não existe mais aquele romantismo de saber a hora certa de fotografar, há uma série de detalhes técnicos que não existem mais. O que me fez começar na fotografia foi a paixão pela hora de saber captar um momento. Aí, como tudo na vida, você vai se aperfeiçoando e se adaptando à realidade.
Mesmo sendo natural de Ribeirão Preto você optou por Maringá como principal local de trabalho. Qual o motivo da escolha?Na verdade meu pai, por ser pediatra, tinha todos os amigos dele em Ribeirão Preto e a família da minha mãe também era de lá, então acabei nascendo lá. Mas sou de Maringá.
Então, o senhor se considera maringaense?Totalmente. Sou apaixonado pela cidade, tanto que tenho vários projetos aqui. Eu amo Maringá.
Você foi classificado entre os cinco melhores, de 3.000 fotógrafos que participaram do concurso de novos talentos da Playboy, há um ano. Como é para André Sanseverino, fotógrafo profissional, fazer parte de uma das maiores revistas masculina do mundo?Já fotografei para "Elle", "Vogue", "Cláudia" e várias outras revistas, mas eu acho que a "Playboy", para o fotógrafo, é ainda a que mais dá destaque. Já encontrei algumas vezes com o J.R. Duran, que é tido como maior fotógrafo de nú do Brasil. Ele comentou comigo que as pessoas o conhecem como fotógrafo de nú, mas graças a isso ele leva nome para poder trabalhar com publicidade e outras empresas. É o que tem acontecido comigo.
E colocando-se no lugar de um espectador de seu trabalho, qual o sentimento?Quando se faz as coisas com paixão, se faz bem. Tanto, que sempre falo que retorno financeiro é uma consequência e não objetivo. Posso estar fotografando uma artista da "Playboy" ou uma menina da periferia, não diminui em nada meu empenho e qualidade. Não existe trabalho pequeno, médio ou grande. Eu tento me dedicar cem por cento.
Analisando seu próprio currículo, qual modelo você mais gostou de fotografar?Na verdade das top models do Brasil já fotografei todas, acho que não faltou nenhuma. Desde Gisele Bundchen, Ana Hickmann, Isabeli Fontana. O que mais me chamou a atenção foi quando fotografei pela primeira vez a Isabeli Fontana. Ela tinha seu filho ainda recém-nascido. Então, no estúdio chegaram ela, o filho, a babá, três personal stylist para vestí-la, um personal hair, maquiador, a representante da agência no Brasil e a representante da agência de New York. Resumindo, eram 15 pessoas que estavam lá para assessorar a modelo. Ela, na verdade, foi super simples e profissional. E eu lembro que me marcou bastante, pelo circo que se montou ao redor dela.
Há algum tipo de constrangimento entre modelo e fotógrafo? O que eu sempre falo é que, primeiro, como homem, existe uma diferença muito grande entre você cobiçar e admirar uma mulher bonita. Como homem e fotógrafo, se toda mulher bonita que eu fotografasse, eu cobiçasse, primeiro seria um frustrado [risos] e segundo, não poderia exercer a profissão que exerço. Existem os cinco minutos que são daquela tensão inicial da primeira foto, de abrir o roupão. Tanto que existem mulheres que no começo travam. Mas depois é como se a mulher estivesse vestida, porque tem muita gente [no estúdio], como maquiador, iluminador, assistente, produtora de moda. É engraçado que tem mulheres que no final, você tem de pedir para colocar a roupa, porque elas ficam muito a vontade.
E o que acontece com o lado emocional?Não existe o lado emocional, porque quem está lá é o fotógrafo e não o homem. Por mais que seja uma visão masculina e que você esteja admirando, eu sei que a pessoa que é fotografada não está se despindo para mim, mas sim para as câmeras. Na hora, o foco é o trabalho. Para a grande maioria dos homens é decepcionante falar isso. O pessoal fala: Nossa, o cara vive rodeado de mulher bonita. Mas é trabalho. Falando do meu lado pessoal, e não como fotógrafo da "Playboy", eu brinco que é difícil saber quando uma garota se interessa por mim, se ela está se interessando pelo fotógrafo, ou pelo André.
Já aconteceu de você se interessar por uma modelo, ou vice-versa?Isso é um outro lado da profissão, que é complicado. Eu, André, não fumo, não bebo, sou radicalmente contra drogas, não encaro a nudez com naturalidade. Encaro como profissão. Acho que a nudez só se justifica se for para ganhar muito dinheiro ou projeção nacional. Mas já vi trabalhos aqui na região, de meninas que desfilam com o seio de fora, para ganhar R$ 50, por exemplo, acho um absurdo. Quando organizo um desfile de moda, tem camarim masculino e feminino. As pessoas, às vezes, acham que é diferente, mas não é. Acho importante ter esses princípios, é uma série de coisas que eu valorizo muito.
Você está terminado seu novo estúdio fotográfico aqui em Maringá, e é onde está organizando projetos para a realização da ONG "Modelos da Esperança" (MDE). Como surgiu a idéia de auxiliar meninas que têm o sonho de participar do mundo da moda?Foi em um jantar com o Luciano Huck [apresentador da Rede Globo]. Ele tem um projeto ligado a cinema e televisão. Eu, como lido com moda, e Maringá é o segundo maior pólo atacadista do Brasil, vejo que, cada vez mais, catálogos de moda e as fábricas estão melhorando, mas a mão-de-obra não existe. Então, dentro desse aspecto, quis organizar o MDE com o intuito de dar aulas gratuitas para 250 meninas e rapazes entre 14 e 25 anos. O curso vai ensiná-los a serem modelos, recepcionistas, assistentes de produção e camareiras, para colocar esse pessoal no mercado de trabalho.
Como e a partir de quando a ONG funcionará?Só está faltando a parte burocrática, toda a estrutura está pronta. Eu tenho parcerias com a prefeitura [de Maringá] e com o Cesumar [Centro Universitário de Maringá] para realizar uma formatação. O fato de ser gratuito, não quer dizer que vai entrar qualquer pessoa. Serão jovens que comprovem ser pessoas de baixa renda, mas também precisam estar estudando em escola pública ou ter terminado o segundo grau [ensino médio].
Como destaque profissional em Maringá e no restante do Brasil, quais conselhos você daria a futuros profissionais da fotografia, ou não, mas que buscam realização profissional?Nada substitui a dedicação, o trabalho. A concorrência hoje é muito maior. Se você não tiver um diferencial e certeza daquilo que está fazendo só será mais um, vai ser difícil se destacar.
O que, para você, seria um olhar fotográfico?É você saber tirar da pessoa ou do momento, o melhor possível. Por exemplo, eu sou contrário ao uso do Photoshop [software de tratamento de imagens] sem dicernimento. Acho que a pessoa tem de se ver na foto bonita, mas tem de ser ela.
É esse mesmo olhar que o incentivou a realizar o projeto "Modelos da Esperança"?Sou fotógrafo e lido com moda, mas se fosse médico faria alguma coisa ligada à medicina. Não estamos nessa vida de graça. É aquela história, quero escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Não fiz nenhum desses três até agora [risos]. Mas falando sério, eu acho que ninguém é tão pobre que não possa dar nada. Por isso acho que temos de fazer alguma coisa que marque, sim.
E qual é o seu olhar fotográfico em relação a Maringá?Acho uma das cidades mais bonitas do Brasil. Para mim, que viajo bastante e adoro viajar, sempre chega uma hora que bate a saudade. Poderia até me aventurar e morar em São Paulo, mas eu prefiro ficar. É uma cidade que tem tudo para ficar cada vez melhor.
Imagem/Flávia Fontes
André Sanseverino coordena projeto social em Maringá
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