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Matéria Prima
Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Entrevista

  29/09/2006
  3 comentário(s)


CONSUELO CORNELSEN - "Fomos educados a economizar dinheiro e não a vida"

Arquiteta desenvolve projetos que visam a melhoria na qualidade de vida, buscando soluções na arquitetura ecológica

CONSUELO CORNELSEN - Viviane Farias
Maria Consuelo Lupion Cornelsen, 57, é uma arquiteta e designer curitibana formada em Lisboa, Portugal, na turma de 1973. Eclética, especializada em decoração de interiores, já fez diversos cursos: Fotografia, História da Arte, Teatro, Literatura Portuguesa e Jornalismo. Filha do arquiteto Ayrton Cornelsen, mais conhecido como Lolô Cornelsen, e de Cleusa Lupion Cornelsen, morou em Londres, Zurich, Freyburg, Paris e Portugal e esteve em 1978 no Norte da África, "meio em lua- de-mel", como ela mesma se referiu ao período em que passou, também, pesquisando e fotografando a arquitetura africana.

Cornelsen já foi casada e tem um filho, Patrik, que hoje trabalha na área da construção, na Cornelsen Engenharia, e tem como sócio o pai dela. Atualmente divorciada, a arquiteta coordenou diversos projetos de nível nacional, como o "Re-Favela", que tinha o objetivo de melhorar as condições de vida de moradores das Vilas Parolin, em Curitiba, e Zumbi dos Palmares, no município de Colombo, região metropolitana de Curitiba, e o "Casa com ciência", projeto que utilizou materiais recicláveis, como tetra pack, PET, tubos de pasta de dente, madeira, plástico, entre outros, considerados ecologicamente corretos.

Durante a entrevista por e-mail ao jornal Matéria Prima, Cornelsen, que também é dona de uma produtora cultural desde 1986 e está produzindo e levando a Curitiba, pela primeira vez, o TIM Festival, de música, falou sobre projetos, interesses pessoais, além de questões voltadas a problemas sociais, como as ocupações irregulares.

A senhora sempre quis ser arquiteta ou foi influência da família, por seu pai também ser arquiteto?
Eu sempre quis ser muita coisa. "Ser plural como o universo", como me ensinava o poeta Fernando Pessoa. Não sei desenhar, meu talento sempre foi a criatividade. E apesar de o meu pai ser arquiteto famoso, ele tem as idéias dele e eu as minhas.

Um dos projetos que a senhora coordenou foi o "Casa com ciência", uma casa construída com materiais recicláveis que antes iriam parar no lixo. As pessoas estão aderindo a essa alternativa usada na área da construção civil ou elas ainda não estão abertas a essa inovação?
A alternativa da "Casa Reciclada", do projeto "Casa com ciência" tem uma resistência natural que sempre acompanha o novo. E naturalmente demora a ser assimilada. Apesar disso, a casa tem encantado quem consegue entrar nesse universo.

O aproveitamento de água e energia é um dos benefícios dessa casa. Seria, então, uma alternativa para acabar com o desperdício de água no mundo?
Para que se contenha o desperdício de água, primeiramente e urgentemente, necessitamos de uma reeducação sobre a utilização da água. A falta de água potável é uma realidade que as pessoas precisam compreender. A maioria conhece de água apenas [o ato de] abrir a torneira. A captação de água da chuva ajuda contra os desperdícios, como lavar calçadas, roupas, carros, mas não serve para beber.

Utilizar esses recursos seria uma forma de economizar na construção?
A economia é a longo prazo. Infelizmente fomos educados a economizar dinheiro e não a vida. Esse é o princípio de tudo. Quando você compreende isso, o dinheiro passa a não ser o ponto de partida.

Atualmente é fácil encontrar pessoas que estão dispostas a morar em lugares que foram feitos com produtos ecologicamente corretos?
Esse processo é para visionários, pessoas que já conseguem enxergar a deterioração do planeta.

Por que a senhora passou a se interessar pela arquitetura ecológica?
Existiu desde sempre o sistema ecológico e foi redescoberto a partir da conscientização das pessoas. Os alemães, japoneses e americanos saíram na frente. O interesse veio a partir do programa "Re-Favela", em que juntamos vários arquitetos para rediscutir a arquitetura de baixa renda. Entrando em contato com a favela, você tem uma visão real do que é lixo e o que precisamos fazer em conseqüência disso. Não há verbas suficientes para a demanda absurda e tentamos uma alternativa. Daí nasceu a arquitetura do reaproveitamento. Simplesmente aproveitar restos de materiais e dar a eles um desenho arquitetônico, ou seja, remanejar espaços e proporcionar o mínimo de conforto físico e psicológico.

Será que com esse novo passo na área da construção civil vai haver mudanças no comportamento humano com relação ao meio ambiente?
A mudança tem de ser muito mais profunda e depende, como você mesmo diz, do comportamento humano. Que ele seja realmente humano e enxergue um pouco mais que o seu espelho.

Na década de 1980, a senhora reeditou móveis criados por volta dos anos 20 e 50, por artistas, designers e arquitetos considerados de renome. Como surgiu essa idéia?
A Nucleon 8 surgiu talvez do ser brasileiro que habita em mim. Ninguém falava em design. Ninguém se interessava por isso. Os arquitetos da Semana de 22 [Semana de Arte Moderna, de 1922], que eram de vanguarda, continuavam de vanguarda, pois o brasileiro, com todo o seu complexo de inferioridade, apenas imitava o design italiano. Acho que o fato de termos apostado no design brasileiro deu coragem aos novos talentos de mostrarem toda a sua arte. O bom exemplo disso foram os irmãos Campana [Fernando e Humberto Campana, designers], hoje mundialmente conhecidos e que foram lançados pela Nucleon.

A senhora fez pesquisas relacionadas à utilização da luz para espaços residenciais. Por que surgiu esse interesse na iluminação?
A Arquitetura da Luz surgiu em 1983, porque luz sempre foi a magia dos espaços, mas ninguém aqui [Brasil] se preocupava com isso. Começamos a fazer luminotécnica. As pessoas se encantavam quando viam que apenas a colocação correta e cenográfica da luz mudava totalmente o ambiente. Deu no que deu. Hoje não existe projeto de arquitetura sem um bom projeto de iluminação.

O projeto "Re-Favela", baseado na letra de Gilberto Gil, idealizado pela senhora, pretendia melhorar as condições de vida de moradores de favelas. Como foi o desenvolvimento desse projeto?
Existiu uma idéia da não-massificação, que sempre incomodou. A Regina [Regina Bruni, designer], assim como os arquitetos Jaime Bernardo, Julio Peckmann, Cláudio Maiolino, Orlando Bussarello, Mara Paludo que, como eu, incomodavam-se com a mesmice dos projetos propostos por órgãos encarregados da construção de casas populares, buscava algo diferente. Pensávamos até de maneira sonhadora. Fazer a "Casa Cor" das favelas, mas isso não é possível. Os problemas que envolvem os habitantes da favela são muito mais profundos e o governo está cumprindo o seu papel, começando com o tratamento de água e esgoto e levando luz aos barracos [casas]. O resto depende da boa vontade política e da sociedade. O tema tem de ser discutido separadamente. Um dos projetos do "Re-Favela" foi aproveitado na Vila Zumbi dos Palmares, ainda assim, como uma adequação do projeto do arquiteto Cláudio Maiolino.

Para o poder público é um desafio intervir em ocupações irregulares para adequá-las às normas de urbanização. Por que os moradores resistem em deixar esses lugares?
Porque nos assentamentos os habitantes criam famílias, hábitos, têm ali os seus afazeres e amigos. Esse é o seu habitat. Mas ocupações irregulares são muito complicadas, porque são organizações de interesse particular e politiqueiro. Prefiro não falar nisso.

Com esse projeto, as pessoas têm de pagar pelo lugar em que irão morar? Mas não é difícil fazer os moradores deixarem a casa deles para depois ter de pagar pelas que foram construídas?
As pessoas deixam casas absolutamente inabitáveis e que, normalmente, comprometem o meio ambiente. Preferem se instalar perto de rios e mananciais, onde há intervenção dos governantes. As pessoas são levadas para outros lugares que não estejam comprometidos. No caso específico do Paraná, a Cohapar [Companhia de Habitação do Paraná] já compreendeu isso e tem como exemplo a Vila Zumbi [Vila Zumbi dos Palmares], o pessoal retirado das margens ribeirinhas está sendo levado para dentro da vila. O que eles pagam pelas casas é absolutamente simbólico e é de acordo com o que eles podem pagar. Existe coisa mais digna do que comprar a sua casa?

Por que a senhora, uma arquiteta, decidiu se envolver com o TIM Festival?
O TIM fui buscar porque Curitiba há muito (prefeitura Cassio Taniguchi) saiu do mapa cultural, e estou empenhada em colocá-la de volta no circuito. Portinari disse: Se queres ser universal, comece pintando a sua aldeia. E embora para trabalhar com cultura neste país você precise fazer das tripas o coração, eu quero pintar a minha aldeia.


Imagem/Arquivo particular
Consuelo: "mesmice de projetos para casa popular incomodava"


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  Autor: Viviane Farias


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