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Matéria Prima
Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Entrevista

  03/11/2006
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FABRÍCIO CARPINEJAR -"O poeta não tem o tempo de errar. Sempre tem de acertar"

O poeta e jornalista gaúcho escreve sobre pequenos detalhes do cotidiano que podem fazer a diferença para os que amam

FABRÍCIO CARPINEJAR -Nádila Toledo
Fabrício Carpinejar, 33, nasceu em Caxias do Sul (RS). Filho de pais poetas, o interesse pela literatura surgiu ainda na adolescência. "Comecei a escrever e minha mãe olhou e disse: "isso é poema?" E eu perguntei pra ela: "por que tu estás me ofendendo?" E foi ótimo porque minha mãe oficializou aquilo que eu não sabia." Com 18 anos publicou seu primeiro poema na revista experimental da Fabico [ revista publicada pela Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação] . Foi nesse mesmo ano que Carpinejar decidiu estudar jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRG).

Em 1995 começou a trabalhar na imprensa. Em 1998 publicou a obra As Solas do Sol. Esse é o primeiro dos nove livros do autor gaúcho. Segundo ele, cada livro é construído mentalmente. "Um livro de poesias fica dois anos rodando na minha cabeça como se fosse um CD. Depois que eu sinto que está pronto é que ponho no papel." Carpinejar já recebeu diversos prêmios literários, como o Prêmio Nacional Olavo Bilac 2003, da Academia Brasileira de Letras (ABL), com o livro Biografias de uma Árvore, na categoria Melhor Livro de Poesia de 2002.

Mestre em literatura brasileira pela UFRG, Carpinejar mora atualmente em São Leopoldo, no interior do Rio Grande do Sul, e é coordenador do curso de formação de escritores e agentes literários da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). No mês de setembro esteve em Maringá para lançar seu primeiro livro de prosa, "O Amor Esquece de Começar". Em entrevista ao jornal Matéria Prima, o poeta falou mais sobre suas produções literárias e sobre jornalismo a Nádila Toledo.

Por que escrever sobre o amor?
Eu gosto de falar do amor. Porque no amor a gente tem de ter muito cuidado. Não basta amar, tem de cuidar. Quantas vezes amamos uma pessoa e ela demora a se revelar? E na hora que ela se revela, tu há tempos amando aquela pessoa, percebes que não adianta mais? Então, não basta amar. Tem de ser pontual. Tem de entender o momento. Um dia a menos não será um dia a mais depois.

O que é a poesia para o senhor ?
Eu acho que a poesia pode ser uma história, uma narrativa. Eu sou mais ligado a uma poesia comunicativa, para que as pessoas possam entender. Não quero fazer uma poesia difícil, fechada, em que o leitor vai se sentir um ignorante. Quero que o leitor, na medida em que lê, sinta-se mais inteligente do que eu. Algo que as pessoas possam primeiro sentir. Entender pode vir depois. Mas que as pessoas tenham essa capacidade de mobilizar toda sua experiência, todo seu passado, toda sua imaginação. O poeta não pode errar. Na medida em que tu vais ler qualquer livro, tu nunca começas pelo início. A pessoa abre [o livro] pelo meio, abre uma página qualquer. Se o resto não é bom, ela logo vai descartar o livro. Então, o poeta não tem o tempo de errar. Ele sempre tem de acertar. Tem de ter urgência para uma necessidade, porque ele não sabe fazer outra coisa.

E o que é escrever?
Tenho prazer, sinto alegria, gosto de escrever. Escrever, para mim, é a libertação, vejo como uma ampliação. Se hoje eu sou melhor que ontem, com certeza é em função da literatura e do jornalismo. Eu me tornei mais aberto, mais acessível. Eu amo com a linguagem e sem a linguagem. Muitas vezes, encontrar a palavra certa para aquilo que tu estás sentido, tu és capaz de sentir duas vezes. Trabalho poesia em qualquer questão, qualquer gênero. A poesia é um espírito, não é o corpo. Então vivo me encarnando.

O senhor já se interessava pelo jornalismo antes de se interessar pela literatura?
Acho que surgiu simultaneamente. O jornalismo foi muito necessário para mim, para eu aprender a descrição, ou seja, tu estás dando uma notícia, estás informando, buscando a transparência. Não adianta um jornalista que vai ser vaidoso e quer aparecer mais que a notícia. Isso nunca vai dar certo. Acho que tu estás fazendo um serviço. Isso me ensinou, também, que na literatura, o autor não tem de aparecer, quem tem de aparecer é o leitor. Tanto que eu tenho meu blog [http://carpinejar.blogger.com.br/] para publicar meus textos. O site é importante porque nem todo mundo tem dinheiro para comprar um livro. E tu tens de criar canais de acesso à leitura. A pessoa pode se interar, se aproximar sem solenidade. [O leitor] pode comentar, continuar um texto do autor.

Como o senhor diferencia literatura de jornalismo?
O jornalismo não dá tanta importância para o ínfimo, para o detalhe, para o inútil. A poesia só se interessa por isso. A poesia tem muito da esperança de uma mulher que perde o brinco. Ela perde um brinco, mas vai guardar [o outro] na bolsa, na carteira. Ela não sabe onde perdeu o brinco, mas o [outro] brinco vai estar sempre junto dela caso encontre o par. É essa esperança maluca que funciona para a poesia. A poesia se importa com esse brinco perdido. O brinco perdido é a mesma história da procura do amor ideal. Todo mundo é na verdade um brinco qualquer. Tu vais procurar o par para esse brinco.

O senhor, como jornalista, considera que a literatura pode ser uma forma de eternizar sua produção?
Sempre adorei ler. Quando criança, eu adorava ir ao cemitério ler as lápides, os epitáfios. Tu olhas e começas a imaginar como aquela pessoa morreu, com que idade, quem são os familiares que deixam flores. Isso é um exercício ficcional, nunca é a eternidade. Mas eu quero arder, quero sempre viver com intensidade. Eu acho que a literatura não está fazendo nenhum seguro de vida para mim. Não vou conseguir a imortalidade, mas ela [a literatura] vai me ensinar a perdurar em quem eu amo. Não vou viver impunemente.

Há diferença entre escrever crônicas para um jornal e para um livro?
Não. Escrevo com a mesma fome, a mesma gula. É a mesma busca de tornar o invisível em visível. Tem sentimentos que só esperam ser nomeados para existir. A gente se acostumou muito com o vocabulário. A gente tem de estranhar um pouco, tem de ter gosto de falar, de seduzir. A literatura não é para ficar na estante.

O senhor, na posição de escritor, acredita que o jornalismo precisa ser mais interpretativo?
Os dois podem coexistir. Não vejo o jornalismo interpretativo como algo que deva eliminar uma notícia, ou o jornalismo investigativo, eles sempre devem existir. Mas a gente não pode fazer um jornalismo que seja só denúncia. Que fique vinculado demais às circunstancias convencionais. A gente tem de procurar compreender as pessoas com o jornalismo, descobrir novos personagens. Ser mais ficcionista.

O senhor considera que todo jornalista é um escritor em potencial?
Não. Considero que todo escritor é um jornalista em potencial. Eu acho que de certa forma o escritor está descrevendo o mundo novamente. E o jornalista também vai ter essa capacidade de inaugurar o mundo. Só que ele está fazendo realmente um serviço. Vai buscar transparência. Mas a gente tem de destruir a questão de que o jornalismo não é opinativo. É claro que é opinativo. Quem escreve tem opinião. E de uma forma ou outra essa opinião vai pulsar.

"O amor esquece de recomeçar". Esse é o primeiro livro de prosa da sua carreira. O que o levou à produção desse livro?
A produção desse livro se deu, justamente, porque pensei que eu pudesse ser um terrorista, colocando a poesia na prosa. O livro tem um tom de conversa solta, descompromissada, que eu falo de igual para igual.

Por que escrever sobre as mulheres?
Há um assunto mais interessante? Escrevo sobre mulheres porque é o assunto que me deixa mais excitado. A mulher é múltipla, simultânea. O homem, por exemplo, vive cada idade. A mulher quando nasce, mesmo quando pequena, já é avó, já é mãe. [A mulher] é tudo ao mesmo tempo, tem todas as idades, já o homem vive uma idade de cada vez.

O senhor considera que o amor pode acontecer diversas vezes?
Muitas pessoas ficam casadas hoje em dia, para não ter toda aquela incomodação da separação, e de repente nem têm mais amor. Aquele cara casou cinco vezes. Mas quem diz que ele não amou, não encontrou a pessoa certa? Um ano, um dia, não significa que uma pessoa não tenha amado? A gente tem de entender que muitas vezes acaba uma relação não por falta de amor, mas por excesso de amor.

Imagem/ Ivana Martins
Para Carpinejar, todo escritor é um jornalista em potencial

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  Autor: Nádila Toledo


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