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Matéria Prima
Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Entrevista

  26/05/2007
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JACIRA BOENO MACHADO - "Minha vida seria vazia se estivesse sozinha em uma casa"

O trabalho social e uma nova visão de família a transformaram em uma "mãezona"; isso tem sido a razão da vida dela há 30 anos

JACIRA BOENO MACHADO - Fernanda Steigenberg Ramos
Aos 63 anos, viúva, aposentada desde 2003, Jacira Boeno Machado se intitula "mãezona", desde que, em meados de 1970, tendo trabalhado como costureira e então atuando como enfermeira, optou por transformar sua própria casa em um lar para crianças " Lar Dona Jacira, em Campo Mourão (distante 80 km de Maringá).

Ao marcar a entrevista por telefone com a equipe do jornal Matéria Prima (3 de maio), ela ressaltou que não deveríamos perguntar quais eram ou não os filhos legalmente adotivos, alegando tratar todos da mesma forma, com a afeição que dedicara à filha legítima que faleceu aos 2 anos.

A entrevista foi realizada dois dias depois no período da tarde, pois de manhã todos os moradores da casa (mãe, filhos, ajudantes) se organizam para limpá-la, assim como muitas outras famílias.

Ao mostrar as instalações para a equipe, dona Jacira apresentou alguns de seus filhos que estavam em um dos quartos, como Maria, 38, com idade mental de 2, e que não é aceita em asilo por ser muito jovem e nem em casas de adoção por ser maior de idade. Havia outras crianças, algumas com deficiência, outras que deveriam ali permanecer por três meses e já se contam três anos, cada qual com sua comovente história de vida, mas todas com uma necessidade comum: uma família.

Por que a senhora resolveu cuidar de crianças?
Aconteceu. Como trabalhava no hospital, foi a maneira que encontrei de ajudar as mães bóias-frias. Depois outros foram ficando. O fórum começou a encaminhar crianças para adoção. Então o que me levou foi o tempo, a necessidade, a disponibilidade e a aproximação com os necessitados. A maioria são pessoas simples como eu, que precisam.

Quantas crianças já passaram pelo Lar Dona Jacira?
Uns vieram e ficaram alguns dias, outros, semanas, meses, anos. Uns que se criaram aqui hoje estão casados e voltam com os filhos. Na verdade, nunca contei. Acho que perto de mil. Com certeza mais de 800 já passaram, tranqüilamente.

Como a senhora vê o que faz?
Não faço tanta coisa, são as crianças que fazem por mim. Minha vida seria vazia se estivesse sozinha em uma casa. Todo ser humano tem de ter um objetivo, tem de levantar cedo e dizer "hoje eu tenho de fazer isso" e, à noite, fazer uma nova avaliação do que fez de bom e em que pode melhorar. Sempre faço essa análise. Eu me questiono até que ponto fui útil naquele dia.

Qual a sua opinião a respeito das pessoas que adotam uma criança por um dia?
Aqui em casa eu não faço esse tipo de coisa, porque somos uma família. Trabalhamos e passeamos juntos. Eu não faço esse tipo de coisa, porque criança é assim: tem aquela que é desinibida, simpática; tem a tímida, até mesmo aquela que não consegue se abrir com alguém, pois sofreu muita decepção. Há criança fechada, pois cada vez que quis se doar com carinho, só recebeu "não". Ela é muito difícil de ser conquistada. Se você for a um lar, é lógico que vai convidar para ir à sua casa aquela que é mais cativante, que está mais próxima de você. E aquele que está lá no cantinho, parecendo um bichinho encurralado, nunca vai passear. Cada dia ele fica pior. Não faço isso. Se as pessoas querem dar um passeio, tem de pegar o ônibus e levar todo mundo.

Qual a sua visão de família?
Família é tudo na vida de uma pessoa, por mais que tenha defeitos. Quando a gente é jovem a família não é tão importante, mas na meia idade é muito bom lembrar da mãe, do pai, para a gente passar de pai para filho. É isso que está faltando na nossa sociedade: a convivência com a família, essa troca não está existindo mais. Por ficar apenas em creches, as crianças não têm mais história. Notei que quando a mulher saiu para competir com o homem, ela achou que era desvalorizada por ser só mãe. Creio que ela é uma pessoa muito importante na vida de todo ser.

Hoje é mais difícil criar os filhos?
A informação chega mais rápido, você não pode mais "adestrar" uma criança, tem de educar, dar bons exemplos, porque elas não vão acreditar ou ouvir você só porque diz "não pode". Porque eu falo francamente, essa menina que matou os pais [Suzane Von Hichthofen] é culpada. Mas será que os pais dela não foram aquele pai e aquela mãe que só deram dinheiro? E o carinho? Porque eu duvido muito que dos meus filhos, alguém tenha coragem de erguer uma mão para bater em mim, quanto mais me tirar a vida. É muito difícil a gente acreditar que um filho tenha coragem de espancar uma mãe que dá carinho.

Como foi a sua família?
Para minha mãe tudo tinha hora, mesmo que tivesse só duas pessoas em casa. Um paizão que não ligava muito e a mãe que era mais enérgica. Meus irmãos casaram, fiquei muito só. Depois que meus pais faleceram, ficamos apenas eu e minha irmã. Foi então que resolvi trabalhar no hospital e começar a cuidar de crianças. Quando você se propõe a fazer um trabalho social, o maior obstáculo que vai encontrar está na própria família. Porque o meu tempo era o meu trabalho e as minhas crianças. Formei uma nova família e foi difícil para meus familiares aceitarem essa nova condição. Toda família acha que vai perder a gente para o trabalho social. Todos sofrem com isso.

O que a senhora acha do trabalho social?
Eu acho que enobrece. Sabe por quê? Quando a gente se sente infeliz, deixa de ver que lá fora há pessoas que não têm apoio da família, com problemas bem maiores que os nossos.

Qual a diferença entre mãe de verdade e mãe social?
Eu me considero uma mãezona, porque a mãe social é aquela que é remunerada para fazer o que faz, e há dias em que se dedica apenas à família dela. Eu não. Esta é minha família. Eu faço porque quero e não porque sou remunerada para isso.
A senhora já teve caso de rebeldia?
Não, da minha casa nunca ninguém fugiu, eles fogem da casa em que eles estão e vêm para cá.

Fernanda Steigenberg
"Não faço tanta coisa, são as crianças que fazem por mim"

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