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Matéria Prima
Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Entrevista
  20/10/2007
  1 comentário(s)


JOSÉ RIBEIRO DA COSTA - "Um povo que não é culto é muito mais fácil de se manipular"
Conhecido como "Tijolo", ele faz parte do Música, Poesia e Cidadania, mas ainda é registrado como oficial de manutenção
JOSÉ RIBEIRO DA COSTA - Michely Massa
José Ribeiro da Costa, o "Tijolo", 45, nascido em Nova Londrina, distante 153 km de Maringá, é integrante do MPC (Música, Poesia e Cidadania), grupo que surgiu da parceria entre a UEM (Universidade Estadual de Maringá) e a ONG SER (Sociedade Éticamente Responsável). Segundo ele, ninguém o chama de José, e se chamar, dificilmente atenderia, pois, sorrindo, diz mal se lembrar do próprio nome.
Quem o apelidou de "Tijolo" foi o amigo "Jiló", durante uma partida de futebol, quando ainda era adolescente. O motivo? Ele diz desconhecer. Talvez possa ter relação com a antiga profissão de "Tijolo": pedreiro.

Pobre, negro e de pedreiro a artista. "Tijolo" se descreve como "iluminado". Aos 8 anos de idade, quando ainda morava na região de Umuarama, assistia com o primo o "Globo de Ouro", programa da "Rede Globo" que revelava cantores da Música Popular Brasileira. Ao falar sobre os sonhos de um dia cantar em um palco como os artistas que vira, o primo o debochava, chamando-o de louco, sonhador.
Hoje, "Tijolo" trabalha com música na Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da UEM. E foi no Mudi (Museu Dinâmico Interdisciplinar) que, entre uma risada e outra, ele falou à equipe do jornal Matéria Prima, sobre sonhos, lutas e, lógico, música.

Você está em Maringá há 19 anos. A música foi o motivo da mudança?
Não. Eu cheguei à procura de emprego. Na época trabalhava na construção civil, como pedreiro. Trabalhei também como bóia-fria, inclusive em Maringá. Era a época do Collor [Fernando Collor de Melo, presidente], uma época difícil, e eu precisava sustentar a família.

Os seus tios tocavam viola, violão e cavaquinho, e seu pai, sanfona. Com que idade você começou a se envolver com a música?
Quando eu tinha 5 anos, meu avô me deu um pandeiro. O meu pai era igual àqueles sanfoneiros de antigamente, que ficavam sentados em uma cadeira no meio do palco. Com 9 anos eu já estava tocando nos bailes com ele. A festa ia até mais tarde. Quando eu pegava no sono, dormia em um canto ou na casa do dono da festa.

Em algum momento você pensou em desistir de ser cantor?
Eu fiquei um tempo meio afastado da música. O meu pai ficou doente e infelizmente faleceu. Eu tinha uns 17 anos. Também, já não morava perto dos meus tios, que sempre estavam fazendo música. Então me dediquei a outra paixão: o futebol. Só pensava nisso.

Você disse que foi "descoberto" por um professor em um bar, enquanto cantava. Como foi esse convite?
João Alves da Silva. Nossa, eu tenho ele como a pessoa que me deu um "ponta-pé" para a minha iniciação artística. Em 1994. Eu estava em um lugar que eu não tinha o hábito de ir, num boteco. E ele, muito menos. Foi a única vez que ele foi lá. Era uma sexta-feira, final do serviço. Tinha um rapaz com um violãozinho, e a gente começou a brincar. Então apareceu esse professor de história. Ele falou comigo, me deu o telefone de contato. Eu também passei meus contatos para ele. Até que um belo dia, ele me ligou. Ele trabalhava com o Fogança, um grupo folclórico da UEM. Eu fiquei com medo. Era meu sonho, mas tinha medo. Eu fugia do João. Enrolei ele durante um ano. Um dia eu criei coragem e fui. Fiquei nesse grupo durante 10 anos.

No Fogança não havia remuneração. Como você conciliava o trabalho na construção com a música?
Realmente não havia remuneração. Depois de um tempo, a gente começou a receber aquela bolsa de incentivo à cultura, mas o valor era pequeno. Acho que, na época, eram R$ 70. Eu trabalhava como pedreiro e ganhava por dia. Em uma determinada época o grupo ia fazer uma turnê pela Europa. Dois meses. Eu tive de trabalhar muito antes, porque sabia que não teria como trabalhar nesse tempo. Eu levei US$ 90 e deixei um "pé-de-meia" para a minha mulher. Deixei também um crédito em um estabelecimento caso ela ou as crianças precisassem. A gente foi para a França e Espanha. A sorte é que lá eles pagavam muito bem pelas apresentações, além de pagarem a estadia. Deu para economizar um pouquinho. Lá, eles valorizam muito mais a cultura, a arte. Seja ela de que origem for.

Você acredita que a cultura, inclusive a brasileira, é mais valorizada no exterior?
Com certeza. Lá existe um incentivo muito grande. O público é diferente, mais frio. Mas o respeito é imenso. Aqui, se a gente pede verba para incentivar a arte, a cultura, dificilmente se consegue alguma coisa. Agora, se é para construir quebra-molas, é liberado um montante de dinheiro. Não que os quebra-molas não sejam importantes, mas é preciso incentivar a cultura. A questão é que eles sabem que um povo sem educação, sem arte, um povo que não é culto é muito mais fácil de se manipular. Se todos tivessem acesso à cultura, à arte, à educação, o controle, a manipulação, torna-se mais difícil.

Quando você deixou o serviço braçal para se dedicar apenas a arte?
Eu fiz um concurso na UEM em 1997, para ser oficial de manutenção. No dia 16 de março de 1998, as aulas voltaram e eu comecei o meu trabalho. Eu falo que sou uma pessoa iluminada. Eu nunca fui atrás dos meus sonhos. Sempre fiz o meu trabalho, seja qual for, da melhor maneira possível. Sou iluminado por que as pessoas certas sempre chegaram a mim. O professor Marcílio [Marcílio Hubner], que era da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura na época, me convidava para participar de algumas palestras dele, sempre cantando. Nessa época eu fazia parte do Fogança. Com o passar do tempo, ele me chamou para trabalhar com ele na pró-reitoria. Nem sei bem quando isso aconteceu. Mas eu ainda sou registrado como oficial de manutenção.

O "Música, Poesia e Cidadania" surgiu em 2005. Mesmo sem remuneração, o que o motiva a continuar no grupo?
Eu sempre tive vontade de falar, denunciar muita coisa. Principalmente sobre os políticos. Mas não via como. Quem iria me ouvir? Não dariam a mínima se eu simplesmente esbravejasse. Com a música eu posso ir além. Posso falar da realidade com uma intensidade muito grande. E posso ser ouvido. É bom despertar nas pessoas a vontade de mudança. Por isso que eu levo esse projeto adiante.

Você tem outra forma de complementar a renda?
Sim. Canto com o meu amigo Enéias [Enéias Ramos de Oliveira], nos finais de semana, em barzinhos, festas, bailes. Sempre envolvido com a música.

Qual o próximo sonho que você pretende realizar?
São dois. Comprar um carro e fazer faculdade de música. Mas aqui na UEM é muito elitizado. É mais voltado para a música erudita. Eu gosto é do popular.


Imagem/www.sermaringa.org.br
"Tijolo" realiza sonho de infância nos palcos com o MPC

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