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Matéria Prima
Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Entrevista

  22/09/2007
  1 comentário(s)


KENJI UETA - "Vindo do meio do mato, encontrei uma cidade moderna"

O pioneiro que registrou toda a história de Maringá, conta como a cultura japonesa sobrevive ainda hoje na cidade

KENJI UETA - André Dias de Andrade
Considerado o primeiro fotógrafo de Maringá, o pioneiro Paulo Kenji Ueta confessa que desde à primeira vista enxergou o progresso e o crescimento da cidade. Ueta tinha apenas 5 anos de idade quando veio com sua família para o Brasil. Morou no interior do Estado de São Paulo onde os imigrantes trabalhavam nos cafezais, e em 1950 chegou a Maringá.

Ueta conta que depois de pouco tempo em Maringá já teve a certeza de que passaria a vida aqui. Hoje, o pioneiro japonês é dono das redes Foto Maringá e Lojas Ueta Cine Foto Som, sendo que possui um acervo fotográfico de sua autoria que constitui uma das maiores formas de documentação do desenvolvimento de Maringá.

Ueta fotografou muitas das transformações ocorridas na cidade, desde 1950 até hoje. Além disso, Paulo Kenji Ueta já foi diretor da Acema (Associação Cultural e Esportiva de Maringá) em 1982, e também vice-presidente da Aliança Cultural Brasil-Japão do Paraná, em Maringá. Sempre engajado nas práticas que difundem a cultura japonesa ao longo dos últimos 56 anos, Ueta admite que aconteceram mudanças na cultura de seu povo, mas também aponta que isso é um fenômeno natural. "Mesmo que haja mudanças é sempre bom reservar e conhecer bem a cultura original", afirma.

Hoje com 79 anos de idade, Ueta ressalta a importância de se homenagear e prestigiar o centenário da vinda dos imigrantes japoneses ao Brasil, e com muita simpatia concede a entrevista que agora você lê no jornal Matéria Prima.

O que impulsionou a vinda de sua família para o Brasil?
Tinha muita gente no Japão naquele tempo e o governo pagava para que os imigrantes fossem trabalhar no Brasil. Nessa época, o Brasil estava precisando muito de trabalhadores nas lavouras de café. A propaganda era boa demais. Falavam que em um ano você já podia comprar caminhão e terra para morar, e todo mundo vinha. Mas na verdade foi muito difícil no começo, porque era muito trabalho para ganhar pouco dinheiro.

Além de pioneiro, o senhor é um dos primeiros fotógrafos de Maringá. O que lhe chamou a atenção na cidade nos primeiros anos?
Eu só conheci a cidade vendo. Quando eu cheguei aqui a Maringá, vindo do meio do mato [Pompéia, interior do Estado de São Paulo], encontrei uma cidade tão moderna, e isso me impressionou bastante. Eu fui à companhia de terras [Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, responsável pelo plano de desenvolvimento de Maringá] ver a planta, o mapa da cidade, e aí percebi que ela iria crescer. Como no começo aqui era mais poeira e barro, pensei em ganhar dinheiro e depois ir para São Paulo, capital. Mas depois de um tempinho comecei a gostar desse barro [risos].

Ao mesmo tempo que o senhor, muitos imigrantes japoneses vieram morar aqui em Maringá?
Naquela época tinha bastante, não só japoneses, mas de todas as nações. Lá em São Paulo, falavam de muitas mudanças aqui no norte do Paraná. Falavam do café, da terra roxa, e ninguém conhecia essa "terra roxa". E depois chegavam aqui, viam que era uma terra completamente diferente, e sentiam que havia futuro.

Tendo registrado o desenvolvimento da cidade nesses 56 anos, na sua opinião o que hoje mais mudou em relação à Maringá do passado?
Olha, Maringá está de parabéns porque está completamente diferente, e tudo mudou muito rápido. As praças, por exemplo, antes eram só mato e agora se transformaram. Não passam um ou dois meses e já está mudando. Esse crescimento e progresso em Maringá são impressionantes.

Como foi para o senhor fotografar todas essas transformações?
Japonês não adianta falar, tem de ver. Não adianta explicar mil vezes, se tem como dar uma olhada. Mostrando a fotografia, o fato, todo mundo vê que era desse jeito mesmo. Então a fotografia, por ficar como documento na história, foi para mim muito importante.

Como o senhor começou a fazer parte da Acema?
Na época que eu cheguei a Maringá sempre procurava comunidades, e aqui já existia a Acema, sendo que me associei em 1952. Mais para a frente comecei a ajudar no departamento de canto. Acho que se deve entrar em alguma sociedade como esta, pois é muito interessante para conhecer novas pessoas. Você aprende e conhece muitas coisas através dos amigos que faz lá. Eu fui diretor da Acema em 1982, e posso dizer que graças a ela muitas pessoas se ajudaram.

A cultura japonesa em Maringá continua intacta ou sofreu mudanças com o tempo?
Alguma coisa está mudando, isso é natural. Tem de haver mudança, mas coisas originais da cultura têm de ser conservadas. Não se pode distorcer muito, como na dança antiga japonesa, que muitos nisseis e sanseis [filhos e netos de descendentes, respectivamente] dançam de qualquer jeito. E quem vê pensa que é desse jeito, mas não é. Portanto mesmo que haja mudanças é sempre bom reservar e conhecer bem a cultura original.

Para o senhor qual é a importância de entidades que visam a preservar a cultura japonesa?
Tem muito lugar que muda para clube e não consegue segurar a cultura original, vai mudando. Mas é bom preservar para que outras pessoas, outras nações, conheçam o que é a cultura japonesa. Então para mostrar a cultura de verdade, precisam existir lugares como a Acema e escolas japonesas.

Quais são os maiores alicerces que mantêm viva a cultura japonesa hoje em Maringá?
Para mim é o departamento de canto e o departamento de Gueinosai [dança folclórica japonesa] das entidades. Esses não podem de jeito nenhum perder a cultura japonesa original.

O que o senhor acha que caracterizava o imigrante japonês do tempo da colonização de Maringá?
Hoje, analisando e pensando, eu vejo que cada família tinha um pensamento diferente. Um imigrante vinha para o Brasil porque precisava de trabalho, outro mais por curiosidade de conhecer um país diferente e outro porque já possuía família e terras aqui. Meu pai, por exemplo, não era rico, mas também não era pobre. Ele era diretor de uma fábrica grande naquela época e já sabia falar inglês. Queria passar um ou dois anos aqui para conhecer o Brasil, mas chegando ao País tinha a obrigação de trabalhar na lavoura, porque o governo [japonês] pagava e era acordo. Podia ser médico, advogado, o que fosse. Acho que um ponto comum do japonês é que ele obedece. Se tiver de levantar às seis horas da manhã, seis horas ele está na roça.

E hoje, o que há de diferente no jovem descendente japonês?
Ficou muito brasileiro [risos], mais "quebra-galho", que tem jogo de cintura. Por isso muitos que vão para o Japão trabalhar não agüentam, porque às vezes chegam três minutos atrasados no serviço e o chefe fica bravo. Aqui, você atrasa meia hora e ninguém faz nada [risos].

Ano que vem completarão cem anos desde a chegada dos imigrantes japoneses ao Brasil. O que esse centenário significa para o senhor?
É algo extremamente importante para a troca cultural entre os dois países. Acho que esse centenário deve ser muito bem realizado para manter viva a cultura japonesa aqui no Brasil. Se não comemorarmos bem esses cem anos, não poderemos comemorar 150 anos ou mais no futuro.


Imagem/Danilo Donato
Kenji Ueta e duas fotos suas com 50 anos de diferença

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