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Matéria Prima
Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Entrevista
  21/04/2007
  0 comentário(s)


LUCIMARA RINALDI DA SILVA - "As crianças estão me ouvindo, sentem o frio que eu sinto"
Contadora de histórias revela como é trabalhar com o imaginário das crianças narrando uma boa história
LUCIMARA RINALDI DA SILVA - André Leandro de Mello
Lucimara Rinaldi da Silva, 36, tornou-se contadora de histórias após receber o convite de uma freira quando trabalhava na Editoras Paulinas. Fez do convite um desafio que mudaria sua vida de forma surpreendente. A primeira história que contou foi "O Macaquinho e o Minhoco", do livro Meio ao Meio, um grande sucesso no Colégio Santa Cruz, de Maringá. Anos depois, passou a ser funcionária exclusiva do colégio, onde trabalha até hoje.

No decorrer da profissão, foi aprendendo a trabalhar com o imaginário das crianças. Durante 20 minutos por dia conta histórias na "hora do conto", projeto desenvolvido para estimular a leitura. Os alunos chegam ansiosos à sala para saber qual história será contada e logo sentam-se no chão ao redor do palco.

A contadora de histórias recebeu a reportagem do jornal Matéria Prima na sala de teatro do colégio (antiga capela), cheia de fantasias, desenhos, pianos, objetos teatrais e com um enorme crucifixo de pendurado na parede (o que restou da antiga capela).

Como é trabalhar com a imaginação das crianças?
Uma história não pode ser apenas contada por contar, tem de ter emoção. Transmitir sentimentos pelos olhos, fazer as pessoas sentirem o que você está sentindo, compartilhar o seu sentimento. As crianças estão me ouvindo, sentem frio que eu sinto, o medo que eu também tenho. Entram no meu imaginário, isso é maravilhoso [risos].

Como você consegue contar uma história sem repetir as mesmas palavras?
Trabalhando a oralidade e tirando os vícios de algumas palavras. Pegar um livro, ler uma vez e depois tentar contar a história, é ver que fiz uma leitura superficial. Tem de ler várias vezes para tirar palavras como "daí", "então", "aí". Essas expressões só devem ser colocadas quando eu esqueço o texto ou a história.

Ser contador de histórias hoje dá dinheiro?
Diante da situação brasileira, hoje existem muitas profissões com salários pequenos, a minha é razoável. Os cursos dão bem mais dinheiro. Tem de ter amor naquilo que se faz e não pensar só no dinheiro.

Por que é difícil encontrar contadores de histórias?
É difícil ter uma resposta exata para isso. Nem sei quantos existem em Maringá. Eu tenho uma certa fama por estar há 15 anos na estrada. Dizem que tem uma moça muito boa em Londrina, mas não a conheço. Assim ouço dizer nas editoras.

Como a profissão resiste sem ter um curso universitário?
A pessoa tem de ter o dom para atuar na função, e gostar de ler é essencial. É com muita leitura que saem os bons contos. Existem cursos para contadores de histórias em várias cidades feitos pelos próprios contadores.

É difícil contar histórias e competir com a tecnologia?
Você não pode colocar o livro de frente para a criança e mandar que ela leia. Tem de mostrar atrativos do livro para que a criança tenha vontade própria de ler, do mesmo jeito que ela tem quando liga o videogame ou acessa a internet.

Tem idade para escutar história?
De maneira nenhuma. Escutar história faz bem à saúde. Outro dia abri a reunião de pais contando uma história, do mesmo jeito que conto para as crianças. Dias depois, o pai de um aluno me disse que estava tão estressado a ponto de arrebentar tudo e ficou aliviado depois de ouvir a história. Isso prova que não há idade para ouvir histórias.

Quais são as histórias mais fáceis contar, as curtas ou longas?
Eu costumo trabalhar as curtas com crianças da educação infantil à 2ª série para elas não terem acúmulo de informações. Já as crianças das 3ª e 4ª séries puxo mais o imaginário, conto histórias mais longas. As professoras pedem para eles desenvolverem uma produção textual sobre a história que eu contei. Depende muito da idade da criança. Enfim, prefiro as curtas.

b>Você já contou histórias para pessoas com deficiência visual ou auditiva?
Ainda não. Teria de desenvolver um método para contar histórias para os surdos. Talvez eles lessem os meus lábios, mas e os fantoches? Com deficientes visuais eu também nunca trabalhei. Mas acredito ser mais fácil de trabalhar com eles sem ter de fazer uma adaptação de linguagem.

O que te marcou durante essa profissão?
Uma vez, um rapaz disse se lembrar de uma história que contei para ele quando era pequeno, lembrava da história inteirinha. Isso me emociona porque eu passei pela vida daquela pessoa uma vez, e ele guardou a história que eu contei. Isso é fantástico para mim.

Imagem/André Leandro de Mello
Crianças ao redor do palco, durante à contação de Lucimara

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