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Matéria Prima
Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Entrevista
  17/11/2006
  1 comentário(s)


MARCELO MONTEIRO - "Acredito na arte como veículo de transformação social"
Escultor maringaense busca com suas obras instigar população a fugir do comodismo e a enxergar além do superficial
MARCELO MONTEIRO - Sarah Ribeiro
O escultor Marcelo Monteiro, 25, é a prova de que sonhos são possíveis, mas é preciso lutar " e muito " para conseguir realizá-los. Ele já recebeu diversos prêmios em mostras nacionais e internacionais e desenvolveu até uma metodologia para ensinar como esculpir em giz de quadro negro. Mas para chegar aonde está, Monteiro já trabalhou como metalúrgico, artesão em loja de móveis e teve de correr atrás de patrocínios, incentivos e levar muitos "não" para conseguir alguns "sim". Todo esforço valeu a pena, mas Monteiro não se acomodou. Para ele, "todo dia tem de ter algo novo, uma inspiração, tem de estar superando, pulsando idéias, se explorando".

O maringaense, morador do distrito rural de Iguatemi, parece mesmo gostar de desafios. Depois de realizar o sonho de se tornar escultor e poder, por meio da arte, instigar e levar alguns questionamentos à população, Monteiro agora luta para entrar na faculdade de História. Ele quer poder unir em suas obras, carregadas de simbologia, teoria e prática. Monteiro chega do cursinho por volta de meia-noite e já está de pé às 5h. Gasta em média 40 minutos no trajeto de sua casa até a Universidade Estadual de Maringá (UEM), onde trabalha como voluntário no "Projeto Esculturas" da UEM em parceria com a Sociedade Eticamente Responsável (SER). O objetivo do projeto é transformar árvores mortas em obras de arte. E foi sentado embaixo de uma árvore (não condenada) da UEM, entre uma atividade e outra, que Marcelo Monteiro concedeu esta entrevista que você lê agora.

Quando você começou a se interessar por arte?
Desde criança eu me interessava pela argila. Quando eu tinha o contato com a argila, o barro, até mesmo o barro dessa terra roxa [característica na região norte do Paraná], eu mexia com aquilo e já saía alguma coisa. Muitas vezes me pego pensando de onde veio tudo isso, onde foi que eu conheci, quem me apresentou a argila, mas não houve isso. É algo que pulsa de dentro.

E quando a brincadeira virou profissão?
O trabalho em escultura que venho comercializando tem só uns dois anos. Há uns sete, oito anos tive contato com um artista que esculpia em giz [de quadro negro] na praça, mas era um estilo totalmente diferente e aquilo me chamou muito a atenção. Comecei a trabalhar com giz e me aperfeiçoar. No começo eu pegava o giz e fazia só uma cabeça, depois comecei a fazer um busto e a metade do corpo, depois a fazer todo o corpo. Hoje eu fui lá e esculpi dois corpos em um giz, amanhã vou esculpir três corpos em um giz, então é a própria superação que vai determinando para onde você caminha.

Mas como foi sua "descoberta"? Quem o "descobriu"?
Uma professora de história viu meu trabalho e gostou muito. Ela chamou o pessoal do Diário [jornal O Diário do Norte do Paraná], eles foram lá em casa e fizeram a entrevista. Mas eu precisava de um lugar para expor minhas obras, um local com bastante gente circulando, precisava conversar com as pessoas, queria que elas vissem as obras. Conheci o pessoal da Diretoria de Cultura, a Maria Dalva [Carvalho de Barros, na época diretora de Cultura da UEM] e queria o RU [Restaurante Universitário] de qualquer jeito. Peguei umas mesas e fiquei durante duas semanas e meia expondo as obras. Ali, eu conheci o pessoal que estava organizando um seminário internacional, tive contato com mais pessoas e consegui vender algumas obras. Depois, teve a Mostra Paranaense de Artes Visuais da região norte e eu consegui entrar com uma obra que foi premiada com R$ 400. Nada, nada, com 15 dias eu já consegui recuperar a grana que havia gastado. Depois, participei e fui premiado com três obras no 11º Circuito Internacional de Artes e na Mostra Paranaense [de Artes Visuais] da região noroeste. Uma grana ali, outra aqui e eu ia recompondo meus gastos, iam aparecendo encomendas, outras mostras. Mas se é difícil sobreviver de arte hoje no Brasil, imagina em Maringá?

Por que "imagina em Maringá"?
Nós temos uma situação precária em se tratando da Secretaria de Cultura do município. Há alguns eventos muito bons, sabemos que o [teatro] Calil [Haddad] é muito lindo, mas ali a arte é para poucos. Tem o Cine Teatro Plaza aqui no centro, mas eu vejo sendo usado mais para reunião política do que para apresentações, teatro. Talentos, temos demais, mas não tem incentivo, não tem nada. Se a situação aqui em Maringá é precária na saúde, é precária na segurança, imagina na arte? Porque a arte sempre ficou em último caso. Sabemos muito bem que tudo aqui em Maringá e região é muito novo, está tudo começando agora. Têm-se idéias, tem trabalho, tem muita coisa, mas é tudo muito novo, não tem nenhuma arte que se possa dizer: "isso é a cara de Maringá". Seria até ignorância dizer isso.

Por que você acha que acontece isso?
Nós fomos e somos ainda hoje colonizados e ficamos com essa marca. Muitos artistas do Brasil conseguiram ter sua cara, seu ponto. Uma pessoa olha a obra e diz: "essa obra é de tal pessoa, por causa disso, disso e disso". Sem identificação cultural seremos o quê? Essa identificação é muito forte, eu trabalho em cima disso, levo isso para as escolas, falo da importância. Se não houver uma identificação cultural, aos poucos isso vai se perdendo e nos tornamos simplesmente parasitas da globalização. Nós [artistas de Maringá e região] estamos trabalhando para fixar essa marca.

E qual marca você quer deixar nas suas obras?
Eu vejo a arte como um espelho e a minha arte em si vem para incitar as pessoas, que as pessoas levantem a cabeça, olhem adiante. Acredito na arte como veículo de transformação social. Hoje em dia eu percebo, ao conversar com as pessoas, o conformismo marcado na forma de se expressar, na política, no trabalho, em tudo. A pessoa só quer se estabilizar e ficar tranqüila. Trabalhar, todo mês ter aquilo ali e acabou. Isso é muito pouco. O desafio pára aí? A vida acaba aí? Então eu não queria ter vida, porque eu vejo como um impulso. Todo dia tem de ter algo novo, uma inspiração, tem de estar superando, pulsando idéias, se explorando. Ninguém veio a este mundo simplesmente para trabalhar, ter filhos e fazer peso na Terra. A vida é muito mais do que isso.

Como suas idéias são recebidas pelas pessoas? Normalmente elas concordam?
Muitas vezes eu fui visto como careta e até como louco mesmo. No trabalho, na hora do almoço, todo mundo ia conversar, falar de mulher, falar de carro, de bebida, bagunça e muitas vezes eu me excluía, lia um livro, ficava esculpindo em giz ou em madeira com estilete. O que eu quero é o bem espiritual, é estar bem comigo mesmo, não quero simplesmente viver na ignorância. Muitas pessoas são felizes dessa forma, eu não. Não consigo ver as coisas acontecendo e simplesmente aceitar e deixar acontecer, levar as coisas com "jeitinho brasileiro". Para mim não tem mais dessa, não, eu não aceito mais.

De onde vêm suas inspirações?
Se você olhar a fundo uma obra minha, verá que tem a ver com a Ilha de Páscoa [ilha oceânica que pertence ao Chile, famosa por suas enormes estátuas de pedra conhecidas como moais]. Cabeçona, corpão, tudo muito rústico, sem detalhes, sem nada, mas é totalmente eu. Aquela coisa mística me toca, e olha que eu não sou místico. Sempre tive aquela coisa voltada para o lado da carranca, sempre gostei muito dessa coisa de terra, batuque, força, resistência. Sempre dei lugar a essas coisas. É como se diz, a arte não se explica, sente-se, é pura emoção mesmo.

O que você quis mostrar com a obra "O Contemplador" do projeto "Esculturas"?
A frase que eu escolhi para pôr na placa que vai embaixo da escultura diz: "o contemplador tem de elevar-se como uma águia, mas com sagacidade para o êxtase". Isso quer dizer que quando você vai contemplar, não há limite, é um mundo utópico, você pode entrar, vagar, mas a hora que você volta para este mundo e pisa neste chão aqui, se você não estiver firme, cara, você roda. Então vá, usufrua, busque as idéias, mas use isso com coerência, de acordo com o que você vai viver no dia-a-dia. Ter um objetivo é um ponto positivo na vida de todo mundo e é por isso mesmo que eu sempre uso nas minhas obras temas que instiguem. Vamos olhar, vamos abrir mais a visão, é tudo muito amplo.

A obra "O Contemplador" fica permanentemente exposta na Universidade Estadual de Maringá. Não te incomoda fazer uma obra que de certa forma não te pertence?
Um pintor disse que a partir do momento em que ele pinta e coloca aquela obra no mundo, ela ganha espaço e não te pertence mais. E realmente, quem vê, vai ver por um determinado ponto de vista. Então a pessoa vai poder usufruir da forma que ela quiser. A obra está ali, todo mundo passa, olha e leva alguma coisa, isso é emoção. Muitas vezes eu estou trabalhando e chegam estudantes, chegam velhinhos e falam: "nossa, isso era uma árvore?". Essa interação é muito legal.


Imagem/Sarah Ribeiro
Para Monteiro, obras maringaenses não têm marca própria


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  Autor: Sarah Ribeiro


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