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Matéria Prima
Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Livro
  15/11/2003
  1 comentário(s)


GEOVASIO ROSSATO - "A questão dos meninos de rua se tornou produto comercial"
O problema das crianças que moram nas ruas é abordado em dois livros do professor da Universidade Estadual de Maringá
GEOVASIO ROSSATO - Reinaldo Silva
Geovanio Edervaldo Rossato é professor do DCS (Departamento de Ciências Sociais) da UEM (Universidade Estadual de Maringá). É formado em filosofia pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Paraná e em direito pela UEM. É especialista em pensamento contemporâneo, com formação também na PUC. Fez mestrado em direito constitucional na Universidade de Barcelona, onde também fez doutorado em antropologia social.

Ele lançou dois livros que abordam a questão dos meninos de rua no Brasil e na América Latina. O primeiro livro é "Meninos de Rua, quem são, quantos são, como são e como vivem". O segundo é "Meninos de Rua, representações e políticas".
Para escrever os livros, o professor participou de trabalhos comunitários com crianças e adolescentes pobres ligados à Fundação Educacional Meninos e Meninas de Rua Profeta Elias, de Curitiba. O trabalho foi resultado da tese de doutorado de Rossato, desenvolvida na área de antropologia social.

O dinheiro arrecadado com a venda dos livros é destinado à fundação. O lançamento ocorreu no dia 11 de outubro, pela editora Massoni. Os livros podem ser comprados na Eduem, que fica no câmpus da UEM, a R$ 10 o exemplar.
Rossato falou ao jornal Matéria Prima sobre a questão dos meninos de rua de acordo com o enfoque abordado no livro "Meninos de rua: quem são, quantos são, como são e como vivem".

Qual o objetivo desse trabalho?
É fazer uma análise da realidade social brasileira de maneira geral, mas partindo do tema específico que é a questão da infância e da adolescência pobres no Brasil. É um objetivo amplo que eu tento cumprir delimitando um tema específico.

Quais as principais dificuldades encontradas para a realização das pesquisas?
Uma das principais dificuldades foi tentar ver a questão ou o fenômeno da infância dos meninos e meninas de rua a partir deles mesmos. Muitas vezes, os próprios investigadores, pesquisadores e até as pessoas que trabalham com essas crianças, sobrepõem a própria maneira de ver (a questão). Com isso a pesquisa, muito mais que ajudar, acaba atrapalhando essa visão concreta a respeito do fenômeno. Isso é uma coisa que não acontece só com a questão dos meninos e meninas de rua, mas com a pobreza em geral.

No livro o senhor conta que conviveu com os meninos. Como foi essa experiência?
Eu convivi com eles em dois momentos. No início dos anos 90, quando fui morar numa comunidade pobre da periferia de Curitiba, chamada Vila Lindóia, tive contato direto principalmente com a infância e a adolescência pobres e, depois, com os meninos de rua do centro de Curitiba.

Quem são os meninos de rua?
Para mim, meninos de rua são todas aquelas crianças pobres que fazem das ruas o maior espaço de socialização. Onde adquirem regras, valores e identidade enquanto grupo social. Eles são bastante parecidos com a gente, tirando essa especificidade de fazerem das ruas o maior espaço de socialização.

Qual a importância de definir quem são eles?
É dizer quantos meninos existem, porque uma definição mais restrita leva a um número menor de meninos de rua em relação a um conceito mais amplo. Muitas vezes isso é utilizado como estratégia. Às vezes quando se quer diminuir a quantidade de meninos de rua se encomenda uma pesquisa e, dependendo do tipo de conceito adotado, pode ser dito que no ano passado existiam mil meninos de rua e neste ano só existem cem, ou seja, a administração política melhorou sensivelmente a questão social dos meninos de rua. Mas isso pode ser, na verdade, uma manobra conceitual.

Isso é usado como estratégia política?
Com certeza. Os governos, de maneira geral, sempre querem dizer que os problemas sociais na administração deles, melhoraram. E a conceitualização do que é um menino de rua é uma das manobras utilizadas.

Existe a tentativa de amenizar o problema quando se restringe a definição de "meninos de rua"?
Existe. A partir da Segunda Guerra Mundial, quando o mundo se dividiu em capitalista a e comunista, o capitalismo criou uma vertente que não era a idéia do capitalismo selvagem, era a idéia do capitalismo que gerava estado de bem estar social. Então, para justificar e dizer que esse estado de bem estar social estava se concretizando, foram criados vários índices para dizer que socialmente o nível de vida estava melhorando e, entre eles, a questão da infância e adolescência.

O que o capitalismo tem a ver com o crescimento do número de meninos de rua nos últimos anos, especialmente a partir dos anos 80?
Tem tudo a ver. No início da década de 80, o modelo comunista que concorria com o modelo capitalista não estava ganhando espaço. Então, a partir desse momento, se inaugura o neoliberalismo que, pelo visto, é uma política bem recessiva e tem rebaixado o poder aquisitivo da classe média, tem gerado mais desigualdade social, conforme os próprios governantes têm falado e isso afeta diretamente temas sociais, entre eles a questão dos meninos, meninas e adolescentes de rua. Porque todos nós sabemos que essa questão está ligada diretamente à questão das condições sociais e econômicas.

É possível dizer quantos são?
No momento não. Existem só dados estimativos. No Brasil se falava em 7 milhões, depois, virou muita confusão. Existe numa mesma cidade alguém que fala: aqui tem 10 mil meninos de rua; e ou outro vai lá, no mesmo ano, e diz que ali só tem cem ou 120. Não existe uma estimativa confiável a tal ponto de dizermos isso objetivamente. Tem gente que fala que no mundo há cem milhões, outros que falam que há 130 milhões, outros dizem que só há 30 milhões. Vai muito do interesse do momento e do conceito que o investigador adota em relação ao que é e ao que ele considera um menino de rua ou o que a pesquisa considera um menino de rua.

Existe um limite para dizer: a partir daqui uma criança é menino de rua?
É um pouco complicado. O que existe na verdade é a idéia de que o menino, ou a menina de rua, não se transforma, não se faz menino de rua do dia para a noite. Existe um processo que o leva a se tornar um menino ou menina de rua. Esse processo é o que o leva a permanecer, cada vez mais, nas ruas. Existem pesquisas que consideram meninos de rua aquelas crianças que pernoitam de duas a três vezes por semana na rua. É um corte adotado nas pesquisas. Eu não considero isso, porque, então, aquela criança que fica só duas noites na rua não é menino de rua? Só aquele que fica três ou quatro noites que é? Essa questão das definições, a partir de quando um menino se transforma em menino de rua, é complicada.

De uns tempos para cá, a televisão tem explorado muito essa questão dos meninos de rua em filmes, minisséries, séries de reportagem... O senhor acha que a questão dos meninos de rua se tornou um produto comercial para os meios de comunicação?
Sim, se transformou. Como disse, a partir da Segunda Guerra Mundial, os temas sociais entraram na moda. Mas, cada vez mais, tem essa onda de dar esse enfoque na questão dos meninos e meninas de rua. Agora tem até o seriado (referindo-se ao seriado "Cidade dos Homens", exibido toda terça-feira pela Rede Globo). Mas sim, é um produto comercial na medida em que a população está mais atenta a esses temas, o que acaba fazendo com que o tema seja explorado comercialmente pelos grandes meios de comunicação.

O que pode ser feito para amenizar o problema dos meninos de rua?
Existem dois caminhos: o caminho imediato e o caminho a longo e médio prazos. A médio e longo prazos para que isso efetivamente mudasse, teríamos de fazer reformas estruturais em nosso sistema político-econômico. Dentro dessa nova perspectiva do capitalismo, que é a perspectiva do capitalismo neoliberal, essas reformas estruturais não vão chegar. Como isso não vai acontecer, resta tentar reforçar e incentivar os trabalhos que existem com a questão dos meninos e meninas de rua. Tem muita gente bem intencionada que quer ajudar, mas é preciso saber ajudar. É preciso saber construir um trabalho de base com os meninos e não só para os meninos.

Isso precisa partir da sociedade, do governo ou precisa haver uma interação?
De ambas as partes, mas principalmente da sociedade. Cada dia mais, acredito na sociedade civil organizada. O próprio governo vai se mexer para isso se a sociedade pressioná-lo para que faça. Se a sociedade civil se organiza e pressiona o governo e todas as organizações que representam algum tipo de poder, realmente eles vão se mexer e tentar, mais do que colaborar com esse processo, fazer políticas efetivas.

Trechos do livro

"No Brasil, existem 40 milhões de meninos, meninas e adolescentes carentes, abandonados e pobres, ocasionando um verdadeiro holocausto infantil permanente, o que inclui meio milhão de crianças brasileiras mortas a cada ano, antes de completar seu primeiro ano de vida."

"... livros, artigos de jornais, documentário de televisão e de rádio (...) preocupados com notícias comerciais de impacto ou de fachada, projetam (...) viciadas noções cujo status social de ‘ciência’ de que goza o conteúdo chega (...) a institucionalizá-las (...) como se verdade fossem."

"Meninos de rua não são ‘anjos’ nem pequenos ‘diabos’. Eles são simplesmente pessoas ‘normais’, com a característica de viver sob algumas condições específicas de sobrevivência, quando comparados com o cotidiano presumidamente considerado como ‘vida normal’."


Imagem/Reprodução
Dinheiro da venda dos livros vai para fundação Profeta Elias
  Autor: Reinaldo Silva


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