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Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Livro

  26/06/2005
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LUZIA DE MARIA - "O segredo é o prato bem colorido, como a paleta do pintor"

Orientar os jovens sobre os riscos da má alimentação é o desafio da escritora no livro "Te Cuida!", lançado pela Vozes

LUZIA DE MARIA - Equipe Matéria Prima
O mundo de Luzia de Maria é o das letras. É com as palavras, na forma escrita, que ela se relaciona com as pessoas e foi por meio delas que, no ano passado, a escritora lançou-se a um novo desafio: conversar com adolescentes e jovens sobre alimentação.

Luzia de Maria disse que sempre escreveu movida por algo que a tocasse ou incomodasse. Há cerca de 10 anos, ela começou a ler sobre cérebro, quando os neurologistas passaram a indicar a leitura como um eficiente exercício na prevenção de doenças degenerativas - aliás, estimular o prazer pela leitura é a missão dessa escritora em toda a sua obra, composta por mais de uma dezena de livros.

Algumas publicações que ela leu abordavam o cérebro e o corpo como um todo e falavam também de equilíbrio, de vida saudável e de alimentação. Afirmando tomar gosto sobre o que lia, ela disse que foi se aprofundando no tema e mudando o próprio estilo de vida e a alimentação. "Além da energia e do bem-estar que sinto, meus exames de sangue são, hoje, aos 55 anos, bem melhores do que os de 10 anos atrás. Portanto, não é impressão, não é opinião. Os exames são a confirmação científica."

Mas era apenas uma leitora envolvida e não pensava em escrever sobre isso. No início de 2004, uma portaria da Justiça no Estado do Rio proibiu alimentos prejudiciais à saúde nas cantinas das escolas. Ainda assim, ela disse que não pensava em escrever. Mas quando ouviu diretores de colégios particulares - contra a iniciativa - afirmarem que se deve "deixar a criançada comer o que quiser", isso a incomodou muito e pensou: "Não sou nutricionista, nem médica, mas educadora eu sou. Tenho que entrar nessa discussão e tentar contribuir".

O resultado é Te cuida! - Beleza, inteligência e saúde estão na mira, publicado pela Editora Vozes (184 páginas, preço sugerido: R$ 29) em dezembro do ano passado. O livro já está na segunda edição e foi relançado no mês passado, na 12ª Bienal Internacional do Livro, realizada no Rio.

Para ela, a educação nutricional deve ser tratada nas salas de aula, assim como se trata da ecologia. "Cuidar do equilíbrio do meio ambiente não é mais importante que cuidar do equilíbrio do ser humano", disse.

Doutora em Letras e especialista em leitura, Luzia de Maria já percorreu vários Estados brasileiros a convite de instituições interessadas em discutir a questão da alimentação dos jovens. Ela também é autora dos dois volumes da obra "Minha caixa de sonhar - Histórias de viagens para jovens de qualquer idade", publicados pela Editora Globo. O selo "altamente recomendável", concedido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil ao volume I e o fato de o volume II ter sido um dos 20 livros escolhidos para representar o Brasil na Feira do Livro de Bolonha, em 2003, provam que Luzia de Maria sabe mesmo conversar com os jovens por meio das palavras que publica. Te cuida!, disse ela, é o seu gesto de contribuição.

Por e-mail, ela conversou com o jornal Matéria Prima. Confira a seguir:



O seu livro já está na segunda edição. Quem a senhora supõe ser o seu leitor: o próprio jovem " público alvo do seu livro " ou os pais, preocupados com a alimentação deles?
Essa questão nos leva a pensar na palavra "jovem". De fato, o meu livro busca dar uma resposta aos jovens estudantes sobre o porquê de determinados alimentos serem proibidos. Se eu fosse um desses estudantes hoje, eu não gostaria de ter que obedecer às normas da cantina saudável, sem justificativas plausíveis. Por isso usei um estilo leve e brincalhão, sem ser superficial. Mas sei que o meu livro não tem sido lido apenas pelos estudantes de 1º grau ou de ensino médio. Há muitos jovens de trinta e quarenta anos lendo o Te cuida!. Mas sei também de jovens de setenta e oitenta anos que se encantaram pelo livro, que o indicam aos amigos e o dão de presente. E como você vê, esses "jovens" não estão lendo como pais, preocupados com os filhos. É claro que há escolas indicando o Te cuida! como leitura extensiva aos alunos e há pais interessados em sua leitura. Mas o melhor elogio mesmo é quando me dizem - e aí não importa a idade, já ouvi isso de gente de todas as faixas - que o livro "é bom de ler".

Alimentação não é apenas uma questão de saúde. É também de bom humor e de beleza. Ao afirmar isso a senhora quer dizer que nossos jovens estão cada vez mais feios e mal humorados?
Achei ótima sua provocação! Não é bem isso que afirmo, mas é bastante oportuno quando se fala em bom humor, a gente examinar a palavra "enfezado". Ela significa, em sua origem, estar "cheio de fezes", como lembra o médico Helion Póvoa, autor do livro O cérebro desconhecido. Você já viu a quantidade de propagandas de remédios, laxantes, chás e até iogurtes para "intestino preguiçoso", como se alguém tivesse "intestino preguiçoso" como característica própria? Não é por acaso, é que cada vez mais as pessoas sofrem com constipação intestinal por culpa de uma alimentação errada, com poucas fibras e muitos refinados. Essa mesma alimentação provoca as inflamações, desequilibra as taxas de colesterol, cria os casos crônicos de acne e leva à obesidade. Problemas que cada vez mais vêm incomodando os jovens, e é inegável que muitas vezes interferem no humor e comprometem a beleza.

Se são necessárias apenas oito semanas para que nossas papilas se adaptem e apreciem novos sabores, quais alimentos a senhora introduziria de imediato em uma dieta e quais tiraria? Por quê?
Te cuida! sou mais impessoal, mas posso responder usando o verbo no passado, no pretérito perfeito. Mudei toda minha alimentação. Introduzi muitas frutas e verduras, principalmente as verde-escuras, o espinafre, o brócolis, a rúcula, o agrião, a couve, mas também as roxas, o radicchio e a alface roxa. E também vegetais como a cenoura, a beringela, o pimentão vermelho, o tomate, etc. Sem esquecer os peixes e o filé de peito de frango, de preferência grelhados. O segredo é o prato bem colorido, rico como a paleta de um pintor. Quanto às frutas - como eu brinco no livro - são verdadeiros poemas que a natureza nos oferece: além de belas, nos seduzem com o cheiro e nos deliciam com o sabor. E o mais incrível é que quando abolimos de nossas vidas o pernicioso açúcar, depois de algum tempo nossas papilas se tornam mais sensíveis e mais aptas a apreciar os alimentos naturais. Excluí completamente da minha vida as gorduras saturadas, as gorduras trans (a margarina dos bolos, amanteigados e empadões) os refinados (tudo que é feito de farinha de trigo refinada) e o açúcar. E só lamento não ter lido um livro como o Te cuida! aos quinze anos. Por que eu indico essas mudanças? Porque eu não apenas acredito nos seus benefícios; eu os venho experimentando. Além da energia e do bem-estar que sinto, meus exames de sangue são, hoje, aos 55 anos, bem melhores do que os de 10 anos atrás. Portanto, não é impressão, não é opinião. Os exames são a confirmação científica.

A senhora diz no livro que a propaganda é feita para vender aqueles alimentos que não fazem bem à saúde. A indústria "mascara" esses alimentos com belíssimos comerciais. É possível fugir dessa armadilha?
A propaganda é feita para fazer vender o produto. Ninguém o avalia do ponto de vista nutricional, nem avalia a veracidade do que é afirmado nos anúncios. Eu me lembro de uma propaganda recente de balas, que associava a cor vermelha da mesma aos benefícios do morango, a cor verde a uma outra fruta qualquer, etc. Ora, isso é uma coisa perversa. Porque as crianças e muitas vezes até os pais, não têm informação alguma para fazer uma avaliação correta. Isso sem falar nas várias estratégias de sedução, dirigidas às crianças. É justamente por isso que eu defendo a prática da educação nutricional nas escolas. Eu defendo que se trate da educação nutricional nas salas de aula, assim como se trata da ecologia. Cuidar do equilíbrio do meio ambiente não é mais importante que cuidar do equilíbrio do ser humano, concorda? E, é bom lembrar, eu não sou nutricionista. Não se trata de briga em interesse próprio. É porque acredito que a população em geral pode se beneficiar e muito, da informação, do conhecimento. Só ele pode fazer frente ao poder do marketing.

O governo tenta promover a boa alimentação instituindo nos Estados leis que determinam o que pode e o que não pode ser vendido nas cantinas das escolas. Então, também não seria o caso de iniciar a antipropaganda dos maus alimentos, como já faz (com bastante atraso, diga-se) em relação ao cigarro?
Acho que sim. Está mesmo na hora de se fazer alguma coisa. Ao lado das leis sobre as cantinas, acho que o assunto precisa ser amplamente discutido, principalmente nas escolas, de todos os níveis, aliás. Faço muitas palestras em universidades e fico impressionada com a quantidade de camelôs e carros vendendo as chamadas "porcarias" nas portas dessas instituições: sanduíches escorrendo molhos gordurosos, empadões, tortas, biscoitos amanteigados ou recheados fartos de gordura trans, etc. Não é à toa que, nos dias atuais, tantos jovens estejam com desequilíbrios nas taxas de colesterol, hipertensão e diabetes. Escrevi um outro livro, para crianças, sobre esse mesmo assunto (o Bruxabela, Bruxofred e os segredos de Vô Tetra " Editora FTD) e nele a personagem principal está se tornado refém do "Trio Deveras Assombrante" - aquele que assusta até os mais poderosos bruxos e é formado pelo "Colesterol ruim nas alturas", pela "Hipertensão" e pelo "Diabetes". Como você vê, eu já comecei a antipropaganda dos maus alimentos. O grande problema da Bruxabela é a sua péssima alimentação e o fato de ser cliente cativa das lanchonetes Béc Brúxald's, onde se empanturra de béc-duplos com maionese e ketchup; de béc-shakes e béc-sundaes escorrendo caldas de caramelo ou chocolate. Uma ótima antipropaganda é também o filme SUPER SIZE ME " A dieta do palhaço . Já comprei o DVD e ele também se encontra nas locadoras.

Quem deve ser apontado como o principal responsável pela alimentação inadequada do jovem, pais ou escola?
Nos dois livros que escrevi sobre esse assunto, com base nas leituras que fiz, mostro alguns pontos de uma história da comida. Por exemplo, o homem neopaleolítico vivia da pesca, da caça e da coleta de frutas, vegetais e sementes. Os carboidratos consumidos por ele - frutas e vegetais - eram ricos em fibras e em micronutrientes (vitaminas e minerais) indispensáveis ao equilíbrio do corpo. Observe: geneticamente somos iguais. Nosso organismo não mudou, temos necessidades nutricionais idênticas. Mas o nosso estilo de vida e o de nossos ancestrais é substancialmente diferente. Durante séculos a nossa alimentação não mudou muito, mas nas últimas 5 décadas mudou demais. No Brasil, por exemplo, nos grandes centros, a classe média passou a almoçar fora de casa e trocou o arroz, feijão, saladas, verduras, carne e ovo por sanduíches, empanados, frituras, sempre acompanhados pelos refrigerantes e uma torta açucarada e cremosa como sobremesa. Veja: não estou fugindo à sua pergunta. É que a coisa é bem mais complexa do que apenas responsabilizar os pais ou a escola. Os costumes alimentares não mudaram somente com a geração de jovens estudantes dos dias atuais. Muitos pais têm pouca ou nenhuma informação sobre as questões nutricionais. Muitas escolas, idem. Mais uma vez, volto a afirmar, o conhecimento é indispensável. E as informações já estão sendo bem disseminadas em livros, revistas e jornais. Mas... - e aí chegamos à minha outra questão - falta leitura! Lamentavelmente, ainda falta leitura!

Se em 1976 já se sabia que os problemas de comportamento violento e agressivo estavam relacionados ao consumo de açúcar presente nos doces e balas, desses vendidos nas cantinas, por que só agora decidiu-se por criar normas de alimentação saudável nesses estabelecimentos?
Está lembrada do motivo que me levou a escrever o livro? Muitos diretores de escola, pelo Brasil afora, ainda não aceitam e não concordam com as proibições. No meu livro da Bruxabela, o "Grupo do Bruxo Papão", que é formado por descendentes daqueles primeiros alquimistas que tentavam transformar matéria vulgar em ouro e que no presente responde pela grande indústria de alimentos - isso lá, no mundo dos bruxos - é claro que também ficaria contra as leis sobre as cantinas. Leis como essas interferem em muitos interesses. Porque os alimentos menos nutritivos estão entre os que dão maior margem de lucro, por isso a proibição esbarra nos interesses do capital. O "Grupo do Bruxo Papão" da minha história (uma divertida alegoria) quer mesmo é transformar matéria vulgar em ouro, lembre-se! Para contrapor-se a ele - tal como lá, no Tropical País dos Bruxos - precisamos muito do "Grupo Saudinvejável", formado por descendentes daqueles primeiros alquimistas que buscavam o elixir da longa vida. Certamente ele ficaria contente com as leis das cantinas. Vamos torcer pelo crescimento do "Grupo Saudinvejável" Brasil afora! Que o Paracelsus Nepos et Nepos, o sábio Vô Tetra, saia dessa batalha vencedor!

No livro, a senhora provoca o jovem e diz que se ele está pronto a questionar tudo, está na hora de questionar também essa indústria de alimentos que engorda e faz adoecer. Mas o que faz o jovem não assumir uma atitude pessoal e seletiva em relação ao que ele come não seria justamente querer confrontar qualquer tipo de "autoridade" sobre ele?
Isso mesmo! O jovem questiona a autoridade, o poder, o domínio sobre ele. Quer liberdade para ser ele mesmo! Formidável! Ora, minha provocação é para que o jovem perceba que há uma força poderosíssima "pensando" por ele, "agindo" por ele, "decidindo" por ele, "comprando" por ele. E ele está pagando o preço de seguir o fluxo sem questionar, sem procurar se informar, sem conhecer o traçado e ainda poderá pagar um preço altíssimo por seguir às cegas, num rumo que não se sabe onde vai dar. Quando eu era adolescente, me lembro que ao saber que alguém estava "com pressão alta", hipertensão, isso para mim era um indicativo de que a pessoa estava ficando velha: pressão alta era doença de velhos. É espantoso a gente saber que no Rio, em 2004, foi inaugurado, no Hospital Geral de Bonsucesso, o 1º Ambulatório para Tratamento da Hipertensão Infantil. Enfarte e acidente vascular-cerebral têm acometido pessoas cada vez mais jovens. E quando a OMS (Organização Mundial da Saúde) propõe aos países participantes que criem normas para exigir que as indústrias diminuam o sal, o açúcar e a gordura nos alimentos industrializados, o lobby dos usineiros, no Brasil, logo dá o ar de sua graça, pressionando contra. Não é preciso estar atento? Questionar e tomar as rédeas do próprio destino?

O diabetes vem ganhando status de doença crônica do século 21. Em que proporção o diabetes estaria ligado a hábitos alimentares ruins?
Existe um estudo, do médico T. L. Cleave, ex-diretor de pesquisas médicas do Instituto de Medicina Naval dos Estados Unidos, publicado em 1974, The saccharine disease, que parece responder à sua pergunta. O Dr. Cleave estudou os registros hospitalares de países do Terceiro Mundo, especialmente da África e surpreendeu-se com o que descobriu: doenças comuns na cultura ocidental - como diabetes, câncer de cólon, diverticulite, doenças cardíacas e outras - não existiam nesses países. Comparando com outros povos, ao final da pesquisa ele concluiu: o que os protegia dessas doenças era a total ausência de carboidratos refinados em sua alimentação. Ele nomeou o fenômeno "Regra dos Vinte Anos". Porque depois de estudar o estilo de vida de vários povos e principalmente dos judeus iemenitas, ele descobriu que 20 anos após a introdução de uma dieta com carboidratos refinados e alto teor de açúcar, começam a surgir os casos de diabetes, doenças cardíacas e várias outras. Bastante lógico! Porque os carboidratos refinados têm um índice glicêmico altíssimo, como eu mostro no Te cuida! ; alimentos com elevado índice glicêmico são responsáveis pelos desequilíbrios da glicose e da insulina, e tais desequilíbrios têm relação direta com o diabetes tipo 2. A relação me parece muito clara. Não é "sinal dos tempos", o apocalipse; é sinal dos estragos que a alimentação dos novos tempos vem provocando.

A senhora diz que em relação ao cérebro o pior dos pecados é a preguiça. O jovem, hoje, está muito mais preguiçoso que o jovem de 20 anos atrás. Foi a alimentação industrializada que causou isso?
Quem está afirmando que o jovem de hoje está muito mais preguiçoso que o de 20 anos atrás é você. Eu não tenho dados para afirmar isso. Pelo contrário: no meu livro Leitura & Colheita eu relato uma experiência de leitura realizada por mim, durante alguns anos, em que adolescentes de ensino médio, de uma escola pública, liam entre 50 e 70 livros em um ano. Minha impressão acerca dos jovens é, portanto, muito positiva! O que eu afirmo acerca do cérebro é o que os mais recentes estudos dos neurologistas vêm apontando: em relação ao cérebro, a máxima é "use-o ou perca-o". Ele funciona como uma biblioteca onde sempre cabem mais livros e, quanto maior o número de informações armazenadas, mais rápido e com mais eficiência o cérebro processa essas informações. É por isso que é tão importante a leitura enquanto exercício. Ela é a possibilidade de formação de novas conexões neurais e quanto maior o número de conexões, maior a capacidade intelectual. Meu intento é sempre estimular os jovens a descobrir o enorme potencial que possuem. Por outro lado, o "sedentarismo cerebral", o pouco estímulo e a pobreza de novas conexões neurais, associados a uma alimentação igualmente pobre em nutrientes, levam às doenças degenerativas. Além disso, é preciso lembrar que todo alimento prejudicial ao coração, também prejudica o cérebro, como eu aponto no livro.

Se a ciência considera o intestino um "segundo cérebro", como a senhora orientaria as pessoas a usarem essa informação em benefício próprio?
Ótima pergunta! Segundo a medicina chinesa, as doenças começam no intestino, e felizmente muitos médicos brasileiros, principalmente os ortomoleculares, começam a dar atenção a ele. Porque há vários dados importantes a serem considerados: as pesquisas mais recentes afirmam que o intestino responde por 80% da nossa imunidade, ou seja, depende do seu perfeito funcionamento 80% do nosso potencial de resistência a doenças e infecções; o equilíbrio da flora intestinal merece todo cuidado, porque são bactérias do intestino que processam as vitaminas do complexo B, por exemplo, e várias outras proteínas e substâncias úteis ao nosso organismo; alguns neurotransmissores, como a acetilcolina - que responde pelo bom funcionamento da memória e principalmente a serotonina - que garante a nossa sensação de bem-estar, são produzidas no intestino. Por isso não podemos ser displicentes e nos empanturrar com alimentos refinados. O resultado será o "cocô duro" e se fazemos uso de laxantes para resolver o problema, destruímos a integridade da flora intestinal. Também não podemos sobrecarregar o organismo com alimentos pró-inflamatórios (no livro dou uma lista deles) e depois nos entupirmos com antiinflamatórios, que afetam as paredes do intestino, tornando-as comprometedoramente "permeáveis", o que pode ser uma porta aberta às doenças. Para evitar isso, é necessário cuidado com certos remédios, como os antiinflamatórios, por exemplo. Uma alimentação sem fibras é a responsável pelo intestino preso e fezes mantidas no intestino além do tempo normal são uma fonte de toxinas envenenando seu corpo e desencadeando processos inflamatórios. A saída é uma dieta equilibrada, com alimentos integrais, ricos em fibras, como a aveia integral, por exemplo, com muitas verduras e frutas, nada de refinados, gordura de boa qualidade, carnes brancas especialmente peixes.

As massas, os refrigerantes, os doces precisam ser totalmente banidos de nossa dieta?
Essa é uma decisão de cada um. Eu penso que a partir do momento em que a gente passa a optar pelos alimentos como substâncias que vão manter ou destruir o equilíbrio do nosso organismo; quando escolhemos cada alimento pelos nutrientes que ele contém e começamos a priorizar aqueles que têm mais a oferecer, sobra pouco ou nenhum espaço para aqueles que nada oferecem, aqueles pouco nutritivos ou até mesmo antinutritivos. Ou seja, porque me convenci de que preciso ingerir certas vitaminas e quero, portanto, comer cinco porções de frutas e verduras diariamente, não sobra espaço em meu prato de refeição para arroz branco ou massas pouco nutritivas; não sobra espaço no lanche para tortas ou biscoitos açucarados. Porque me convenci de que preciso consumir fibras e decidi, portanto, comer aveia integral cozida, misturada ao iogurte natural e ao germe de trigo, como café da manhã, não sobra espaço em meu estômago para consumir pão branco com margarina, compreende? Porque me convenci de que posso oferecer ao meu corpo os benefícios de um saboroso suco de frutas ou da água pura, não sobra espaço para refrigerantes. É tudo uma questão de prioridade. Priorizar o melhor, porque eu mereço o melhor. Acaba sendo uma questão de auto-estima. Uma questão racional: optar de forma inteligente, consciente. Acho que não podemos ser inteligentes em outras áreas e agir de forma burra em relação à alimentação.

A pirâmide alimentar tal como a conhecemos, com açúcares e gordura no topo e cereais e massas na base, está errada?
Depois que nasceram minhas filhas, meu percentual genético tornou-se mais visível (meus pais eram gordos; não obesidade mórbida, mas obesos) e passei a me sentir "com grande tendência a engordar". Comia como 99% dos brasileiros, mas vivia em luta com a balança. E sempre fui muito observadora, de modo que aquela clássica pirâmide alimentar sempre me incomodou. Porque se eu comesse de 6 a 11 porções de pães, cereais, arroz e massas - o que é a base da pirâmide - seguramente eu perderia qualquer batalha com a balança. Aquilo sempre me pareceu equivocado. Hoje sei que aquela pirâmide foi criada pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos numa época em que havia abundância de grãos e era preciso criar a demanda, como mostra Barry Sears, um dos autores da minha bibliografia. Felizmente temos hoje a Pirâmide da Alimentação Saudável, proposta por Walter C. Willett, professor de medicina da Harvard Medical School, em cuja base estão, além dos exercícios físicos, os alimentos integrais e as gorduras benéficas, seguidos logo depois pelas frutas e verduras.

Depois de ler o livro, fica a sensação de que até agora erramos com a alimentação. Há uma idade limite para a reeducação alimentar?
Essa questão da "idade limite" depende muito da postura de cada um diante da vida. Italo Calvino cita um episódio, contado por Cioran, que me ocorre para responder sua pergunta. "Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. "Para que lhe servirá?", perguntaram-lhe. "Para aprender esta ária entes de morrer"." Ora, eu penso que enquanto estamos vivos, vale a pena lutar pela vida e vale tentar fazê-la melhor. Vale fazer dela oportunidade de aprendizagens e crescimento. Segundo alguns médicos e entre eles Michael Roizen, nós não vivemos este ano com o corpo do ano passado. A partir do momento em que cuidamos da alimentação, os resultados começam a aparecer. E o momento para começar, depende do modo como cada um se relaciona com a vida. Eu não acredito em idade limite para se encarar mudanças, até porque o que mais temos visto é a pessoa, depois de uma certa idade, ver-se obrigada a mudar drasticamente seus hábitos alimentares por motivo de doença. É o que acontece com os diabéticos, com os enfartados, com os sobreviventes de AVC, etc. Precisamos inverter essa equação: a saúde é nosso bem mais precioso e merece mais cuidados que a doença! Merece cuidados extraordinários! Nosso corpo generosamente agradece!



Imagem/Reprodução
Te cuida!, publicado pela Editora Vozes (184 páginas, preço sugerido: R$ 29)



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