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Matéria Prima
Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Livro

  22/11/2003
  1 comentário(s)


NELSON RAMOS BARRETO - "Os assentamentos viraram favelas rurais"

Jornalista transforma a monografia em livro-reportagem e afirma que a reforma agrária brasileira é um fracasso

NELSON RAMOS BARRETO - Sandra Slesinsky
O recém-formado jornalista Nelson Ramos Barreto, de 48 anos, teve sua monografia de conclusão de curso considerada "inédita e ousada" por um dos membros da banca examinadora da UnB (Universidade de Brasília). Ele cursou, aos 17 anos, a faculdade de história no Rio de Janeiro, mas sua verdadeira vocação era o jornalismo. Depois de trabalhar algum tempo na área decidiu, aos 43 anos, cursar uma faculdade de jornalismo e entrou na UnB. Barreto afirma em seu trabalho "Reforma Agrária: o mito e a realidade", transformado em livro-reportagem, que a reforma agrária no Brasil é um fracasso.

O autor afirma no livro que "do ponto de vista econômico, o resultado (da reforma agrária brasileira) foi um rotundo fracasso, pois a produção é inexistente, sendo necessário o fornecimento de cestas básicas para a sobrevivência dos assentados. As conseqüências sociais são ainda piores: a disseminação de favelas pelo campo vem gerando intranqüilidade no meio rural". Nas justificativas diz que "o programa da Reforma Agrária vem sendo apresentado pelos sucessivos governos como investimento social. O governo de Fernando Henrique Cardoso, que se apresentava como tendo feito a maior Reforma Agrária do mundo, tanto pelo número de famílias assentadas quanto pela extensão de terras desapropriadas, oculta, entretanto, o resultado negativo desta política ao desconsiderar que os assentados da Reforma Agrária pouco produzem, não têm renda, além de viverem em péssimas condições nos assentamentos, muitas vezes qualificados de ‘favelas rurais’".

Nelson Barreto relata o que encontrou em alguns assentamentos: "impressiona a capacidade de destruição e vandalismo nos assentamentos. As antigas benfeitorias são depredadas. Se havia produção agrícola ou pecuária, elas são extintas ou minguadas. A madeira das matas é a primeira a ser cobiçada. Ela é retirada sem nenhum critério e passando por cima de qualquer lei."

Para realizar o estudo, o jornalista disse ter percorrido mais de 20.000 km por todo o Brasil, visitado 60 assentamentos, muitos considerados "modelos" da reforma agrária brasileira, convivido com assentados e comparado a realidade deles com o discurso do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e da FAO (Food and Agricultural Organization) e ainda com as matérias publicadas na grande imprensa. Tudo isso ele transformou em um livro de 126 páginas (Livraria Virtual, R$ 13,99). Por e-mail, ele concedeu entrevista ao jornal Matéria Prima.

Como o senhor se decidiu pelo jornalismo?
Meus trabalhos jornalísticos iniciaram em 1986, quando me transferi para Brasília a fim de fazer assessoria parlamentar da TFP (Tradição, Família e Propriedade). Comecei a escrever artigos sobre as atividades do Congresso Nacional, ocasião que entrei para a Associação de Imprensa do Distrito Federal (AIDF). Adquirindo gosto pelo que fazia, resolvi cursar jornalismo, pois apreciava o lado investigativo e crítico das reportagens, além das conveniências profissionais. Permita-me aqui uma digressão. Quando maturava a idéia de fazer o curso de jornalismo, ouvi uma entrevista radiofônica de um presidente de sindicato de jornalistas, cujo nome não me recordo agora. E, de repente, ele citou São Francisco de Sales como sendo o padroeiro dos jornalistas. São Francisco de Sales era príncipe, doutor, bispo e santo. O entrevistado comentava que era bem diferente da média dos jornalistas que não são ricos, não são sábios, têm que pesquisar e estudar o assunto para cumprir a pauta e, por último, raramente são santos. Confesso que, para mim que sou católico praticante, passei a ter devoção ao nosso padroeiro e fiz uma promessa a São Francisco de Sales que acredito ter sido decisiva. A ele ofereci a minha dedicatória do curso e do projeto final de graduação.
Quais as dificuldades do curso de jornalismo e a importância do diploma para a carreira?
Creio que os cursos de jornalismo no Brasil pecam pela falta de um maior embasamento de cultura geral. Estudar, por exemplo, os clássicos das várias áreas e não ficar apenas na técnica jornalística.

Como se deu a escolha desse tema, reforma agrária, para o seu Trabalho de Conclusão de Curso?
Há muito tempo que acompanho o debate da reforma agrária. Morei mais de 10 anos na Universidade Rural do Rio de Janeiro onde meu pai era professor. Lá, os temas agrários eram muito comentados e discutidos. Quando vim para Brasília, na época da Constituinte, o tema da reforma agrária foi muito polêmico e mal resolvido. Quanto à situação dos assentamentos, mesmo conhecendo o fracasso da reforma agrária em outros países, não podia crer num fracasso tão grande como o encontrado nos assentamentos da reforma agrária brasileira, pois a propaganda sempre dizia o contrário. Por isso, o meu trabalho foi considerado ousado e inédito por um membro da banca.
A idéia de transformar o resultado de sua pesquisa em livro-reportagem nasceu antes do levantamento feito sobre o tema ou a partir daquilo que foi apurado?
Em 1995, no início do governo FHC (Fernando Henrique Cardoso), fiz algumas viagens, chegando a visitar 44 assentamentos. No ano passado, no final dos oito anos de governo FHC, que dizia ter realizado a maior reforma agrária do mundo, fui comparar os resultados. Meu orientador estimulou-me muito a transformar o resultado da pesquisa em livro, pelo que lhe sou grato.

E como ocorreu esse trabalho de pesquisa, desde o ponto de partida até as primeiras constatações que o levam a afirmar que a reforma agrária não passa de propaganda orquestrada pelo MST e pelo Incra?
Pela realidade que encontrei nos assentamentos e depois buscando a explicação nos teóricos da RA (reforma agrária). Cito apenas a definição de Liou-Chao-Tchi, secretário-geral do Partido Comunista chinês, que afirmou em 1950: "A reforma agrária é uma luta sistemática e feroz contra o feudalismo e seu objetivo não é dar terras aos camponeses pobres, nem aliviar sua miséria: esse é um ideal de filantropos não de marxistas".

Por que o senhor diz que a reforma agrária no Brasil é um completo fracasso? Não existem exceções?
Não as encontrei, embora as tenha procurado nos assentamentos considerados modelos.

O que vemos e ouvimos nos noticiários é diferente. A imprensa brasileira esconde os fatos deliberadamente?
Só perguntando para eles.

Que interesse a grande imprensa teria em promover a reforma agrária se, de fato, isso não está ocorrendo?
Só perguntando para eles.

O senhor narra no livro casos de depredação das fazendas confiscadas, em que os assentados destroem a infra-estrutura existente e promovem o desmatamento descontrolado. Que atitudes poderiam evitar esse tipo de coisa?
Nos assentamentos não vigora o direito de propriedade. Os assentados reclamam que eles não têm nenhum direito, e são tutelados pelo Incra, MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-terra) e CPT (Comissão Pastoral da Terra). "O olho do dono engorda o boi", reza o adágio.

De quem é a culpa pelo fracasso da reforma agrária brasileira?
Toda reforma agrária socialista, como a que vem sendo feita no Brasil, fracassou onde quer tenha sido implantada. Até a China comunista já revogou sua Reforma Agrária. Só o Brasil ainda continua na contramão da História.

Qual seria o ideal de reforma?
O Estado faria um grande favor se não atrapalhasse a livre iniciativa, pois a agricultura vem crescendo satisfatoriamente sem ajuda do Estado. Aliás, esse foi o grande "favor" do governo FHC ao abandonar os produtores rurais e usar todos os seus recursos para o MST. Os assentamentos viraram favelas rurais e a agropecuária deu um salto na produção. Há uma máxima que afirma: "Tudo que o Estado faz de mal é bem feito. E tudo que ele faz de bem é mal feito".

Para escrever seu trabalho, o senhor disse ter percorrido mais de 20.000 km e visitado 60 assentamentos da reforma agrária. Quanto tempo o senhor permaneceu em cada assentamento e como financiou essa visita?
Não recebi as gordas diárias do Incra, nem da FAO. Na primeira viagem, recebi ajuda de custo do Informativo Rural para o qual elaborei algumas matérias e, na segunda, fiz com meus próprios recursos. Quanto ao tempo, o suficiente para colher as informações necessárias, variando para mais ou para menos conforme o tamanho dos assentamentos.

O senhor pesquisou o período em que Fernando Henrique Cardoso era o presidente. E agora, com Lula no poder, qual a sua previsão sobre a reforma agrária?
A mesma.

Em relação ao seu livro, que expectativas o senhor tem sobre as opiniões de quem foi governo no período pesquisado e de quem é governo hoje?
O presidente do Incra foi trocado, mas até agora a minha denúncia não foi respondida. Tenho recebido muitas correspondências de técnicos e pessoas conhecedoras do assunto manifestando apoio e elogiando-me pela coragem ao tratar do tema naqueles termos. Recebi também alguns xingatórios desprovidos de qualquer argumento, o que equivalem a aplausos.

Crédito: Imagem/Reprodução
Barreto: "Até agora a minha denúncia não foi respondida"
  Autor: Sandra Slesinsky


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