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Matéria Prima
Desde: 06/02/2003      Publicadas: 1989      Atualização: 25/08/2008

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 Livro
  04/10/2003
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NILSON MARIANO - "A impunidade condena ao luto eterno e não pacifica o país"
Jornalista resgata em livro as atrocidades cometidas contra os direitos humanos a partir da aliança entre países do Cone Sul
NILSON MARIANO - Equipe Matéria Prima
Prisão, tortura, morte e ocultação de cadáveres. Estes foram os pilares da rede que nas décadas de 70 e 80 operou o secreto e macabro acordo entre as ditaduras da Argentina, Brasil, Uruguai, Chile, Bolívia e Paraguai, que só viria à tona anos mais tarde como a chamada "Operação Condor". Todo esse processo, que consistiu na criação de uma espécie de zona de exclusão dos direitos humanos no Cone Sul, resultou no genocídio e desaparecimento de milhares de cidadãos, além do exílio forçado de tantos outros que conseguiram sobreviver à perseguição do "terrorismo de Estado".

A Operação Condor selou o destino daqueles que manifestaram oposição às ditaduras, caçados dentro e fora das fronteiras geográficas dos países de origem por meio da cooperação entre os regimes militares, que atropelou tratados de proteção a refugiados e desrespeitou regras do direito internacional. Os números e os relatos desse período de atrocidades estão no livro-reportagem "As Garras dos Condor", do jornalista gaúcho Nilson Mariano, 45, cuja sessão de autógrafos no último dia 11, em Porto Alegre (RS), serviu para lembrar os 30 anos do golpe militar promovido no Chile pelo general Augusto Pinochet, um dos mentores da Operação Condor.

Lançado no Brasil pela Editora Vozes (www.vozes.com.br), "As Garras do Condor" (328 páginas, preço sugerido R$ 43) foi inicialmente publicado em espanhol, há cerca de dois anos. Agora, atualizado segundo o próprio autor, o livro reforça a determinação do jornalista em não pactuar com o silêncio nem permitir o esquecimento de fatos que transformaram profundamente a vida de um incontável número de famílias e que ainda chocam pela crueza com que se procedeu o "descarte" das vítimas. "Entendi que deveria ouvir essas pessoas, porque estão envelhecendo, é necessário preservar o testemunho delas", disse.

Inicialmente estimulada por familiares de mortos e desaparecidos políticos nesses países, a pesquisa de Nilson Mariano para o livro-reportagem também recebeu o apoio financeiro do The Fund for Investigative Journalism (Fundo para Jornalismo Investigativo), de Washington, destinado a apoiar projetos de correspondentes de guerra e ganhadores do prêmio Pulitzer.

O jornalista é repórter do jornal "Zero Hora", de Porto Alegre, formado pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS) e já obteve alguns dos principais prêmios jornalísticos do Brasil, entre os quais o Esso e o Vladimir Herzog de Direitos Humanos. Nilson Mariano concedeu entrevista, por e-mail, ao jornal Matéria Prima. Sobre a atuação da imprensa nesse episódio de horror da história recente do Cone Sul disse que o papel mais corajoso na tentativa de denunciar os crimes políticos foi dos chamados jornais alternativos ou nanicos. "Com a redemocratização, coube aos nanicos fazer o inventário das atrocidades." Acompanhe os principais trechos da entrevista:

O senhor pesquisa a cooperação entre as ditaduras militares de Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia há 10 anos. O que moveu esse interesse?
Ao cobrir as primeiras eleições pós-ditadura no Paraguai, em 1993, notei que pesquisadores estavam abrindo um arquivo muito interessante, o da polícia secreta do ex-ditador Alfredo Stroessner. A pesquisa estava no início, mas já evidenciava que a ditadura do Brasil havia colaborado com a do Paraguai. Achei que o tema era novo e deveria ser investigado. Em 1995, viajei pelo Cone Sul para fazer reportagem sobre a herança das ditaduras militares. Aí, deparei com a Operação Condor. O que havia entre Paraguai e Brasil também aconteceu entre os outros países.

Até 98, com a prisão do ex-ditador chileno Augusto Pinochet em
Londres a pedido da Justiça espanhola, poucos tinham a dimensão exata do que foi a Operação Condor. Se essa prisão não tivesse ocorrido, que compreensão teríamos hoje desse episódio, usando suas palavras, "de genocídio no Cone Sul da América Latina"?

A prisão de Pinochet tornou a Operação Condor conhecida internacionalmente. Acho que a iniciativa do juiz espanhol Baltasar Garzón acelerou as investigações. Não fosse a prisão de Pinochet por 503 dias, e na cosmopolita Londres, o assunto não teria a repercussão
esperada.

Em que momento dessa investigação o senhor decidiu partir para o livro-reportagem?
Apesar de ganhar generosos espaços no jornal Zero Hora, onde trabalho, vi que o assunto era muito amplo. Então, incentivado por entidades de direitos humanos e, principalmente, por familiares dos mortos e desaparecidos, resolvi ampliar para o livro. Em 1998, foi lançado o primeiro, na Argentina, em língua espanhola. Agora, foi lançado o segundo, que aprofunda o primeiro, em língua portuguesa.

Nesse período de levantamento de dados, como se deram os contatos com as fontes? O senhor contou com a ajuda de quem?
Viajei duas vezes pela Argentina, pelo Chile, pelo Uruguai, pelo Paraguai e pelo sul do Brasil para fazer as pesquisas. O livro é baseado em documentos, mas, principalmente, no relato das vítimas das ditaduras e da Operação Condor. Entendi que deveria ouvir essas pessoas,
porque estão envelhecendo, é necessário preservar o testemunho delas.

E as viagens? O senhor percorreu os seis países envolvidos na Operação Condor? Como traçou esse roteiro?
Sim, percorri os países sócios da Operação Condor. O roteiro foi traçado a partir dos fatos, quase sempre nas capitais dos países.

O senhor tem idéia do número de entrevistas que colheu?
Infelizmente, não tenho idéia. Mas foram centenas.

Das seis ditaduras pesquisadas, alguma em especial o perturbou mais ou recebeu de sua parte uma atenção especial? Por quê?
Todas foram cruéis e covardes no emprego do terrorismo de Estado como forma de subjugar suas populações. Mas a da Argentina me pareceu a mais violenta, pela quantidade de mortos e desaparecidos, algo em torno de 30 mil. E, também, pelos métodos empregados, como atirar prisioneiros políticos sedados no oceano, do alto de aviões.

E o Brasil? Como o senhor classificaria a participação do governo brasileiro nesse cenário de horror construído pela Operação Condor?
O Brasil foi o grande inspirador das outras ditaduras, porque melhor adotou a Doutrina de Segurança Nacional (DSN), o método pelo qual o Estado rege e controla a sociedade. Na Operação Condor, o papel do Brasil não foi tão ativo. Em 1975, quando a Condor foi criada, a ditadura do Brasil começava a refluir. Em 76, acabou a censura. Em 1979, veio a Anistia.

Nesse período qual foi o papel da imprensa no Cone Sul?
A grande imprensa, de forma geral, se aliou aos governos militares. A censura e as ameaças também inibiam tentativas de denunciar os crimes políticos. O papel mais corajoso foi dos chamados jornais alternativos ou nanicos. Ou, então, por jornais instalados em outros países. Com a redemocratização, coube aos nanicos fazer o inventário das atrocidades.

Os números impressionam, alguns deles pela crueldade sem precedentes, como no caso dos 2.000 prisioneiros políticos atirados de avião em alto-mar na Argentina. Baseado em sua pesquisa o senhor arriscaria um total de vítimas produzidas nesses seis países pela Operação Condor?
É difícil quantificar as vítimas da Operação Condor, porque as operações eram secretas e clandestinas. O inventário de cada ditadura, independente da Operação Condor, foi realizado por comissões e aponta o genocídio. A Argentina (1976-83) produziu 30 mil mortos e desaparecidos, segundo a Associação das Mães da Praça de Maio. O Brasil (1964-85): 366 mortos e desaparecidos. O Chile (1973-90): 2.011 mortos e 1.185 desaparecidos. A Bolívia (1971-78): cem mortos e desaparecidos. O Paraguai (1954-89), entre mil e 2.000 mortos e desaparecidos. E o Uruguai (1973-84), 297 mortos e desaparecidos.

O senhor acredita que detenções ilegais, seqüestros, tortura são, de fato, práticas de regimes políticos que já não existem mais no Cone Sul?
Entendo que foram práticas de rotina durante as ditaduras. Hoje, ainda existem, mas de forma esporádica e num outro contexto.

E a punição para esses crimes?
Leis de anistia, perdão e ponto final amarraram os países dominados por ditaduras. Mas há esforços para reverter a situação. O Paraguai, tão criticado por sua fragilidade democrática, conseguiu punir os principais culpados, com prisão. Stroessner escapou porque recebeu
asilo no Brasil. Na Argentina, atualmente, há todo um esforço para revogar leis de anistia e esquecimento. Generais, como o ex-presidente Jorge Rafael Videla, estão sendo punidos por crimes hediondos, como seqüestro de bebês (filhos de militantes de esquerda, abatidos nos porões de tortura). Enfim, há uma tentativa de buscar justiça, porque a impunidade condena ao luto eterno e não pacifica o país.


Alguns trechos do capítulo Operação Condor

"Os países do Cone Sul, encerrado o período autoritário, ficaram amarrados às leis de ponto final e anistia, que mandavam esquecer o passado e perdoar os comandantes do genocídio político. Mesmo que o pêndulo do destino voltasse a convergir para o lado luminoso da História, as democracias continuavam fragilizadas. Era penoso conciliar o luto dos familiares das vítimas, enquanto torturadores caminhavam livremente pelas ruas. O alento por justiça veio do Exterior. Movido pela constatação de que aproximadamente 700 espanhóis (o número oscilava de acordo com o avanço das investigações) foram eliminados no Chile e na Argentina, (o juiz espanhol) Baltasar Garzón abriu processo contra os ditadores. Pinochet, em especial, por ter sido o mentor da Operação Condor."

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"Os 503 dias da prisão de Pinochet indicaram que o manto da impunidade encurtara. A Justiça do Chile, encorajada pelo exemplo da Espanha e pela transição democrática no país, abriu processo contra o ex-ditador. Ele perdeu a imunidade que havia se autoconcedido como senador vitalício. O juiz Juan Gusmán Tapia chegou a ordenar a prisão domiciliar de Pinochet. Mas o julgamento não se consumou, a Suprema Corte decidiu que o réu não tinha condições de saúde.

O mesmo Baltasar Garzón se voltou contra outros tiranos do Cone Sul. Indiciou 98 militares e policiais da Argentina, inclusive o Gerneral Jorge Rafael Videla, comandante da primeira junta de governo, por crimes de lesa-humanidade. Se viajassem para o Exterior, poderiam ser detidos, como ocorreu a Pinochet. Garzón também quis interrogar 95 militares uruguaios, mas esbarrou na falta de autorização do governo do Uruguai.
O autor deste livro conversou com Baltasar Garzón em maio de 2001. Alegando razões éticas de juiz, ele disse que não poderia se manifestar sobre os intentos de julgar ditadores do Cone Sul. No entanto, respondeu a uma pergunta, sobre a possibilidade de os países sul-americanos conseguirem punir crimes de tortura, genocídio e terrorismo:

- É difícil que um país, qualquer que seja, tenha a possibilidade de julgar esses tipos de crimes quando ainda está vivo o regime político que permitiu os mesmos. Agora, quando termina essa situação, abre-se a possibilidade de fazê-lo. Se o novo sistema político e jurídico garante o princípio da independência e imparcialidade dos juízes, essas possibilidades se tornam mais concretas."

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"Procurados como criminosos no estrangeiro, os ditadores do Cone Sul corriam o risco de ser detidos nos postos de fronteira e nos aeroportos internacionais, exatamente como acontecia às vítimas da Operação Condor que buscavam exílio forçado. Simbolicamente, estavam encarcerados em seus países, assombrados pelos fantasmas dos desaparecidos que mandaram matar."



Imagem/Reprodução
"As Garras do Condor", de Nilson Mariano, lançado pela Vozes





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